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O Paradoxo da Super Heroína

Por Aline Santana

Segundo a pesquisa do LinkedIn de 2026, State of Women in Leadership, mulheres representam 44% da força de trabalho global, mas apenas 31% dos cargos de liderança. Esse número não foi exatamente uma surpresa para mim — que sou mulher, e estou há mais de 20 anos no mundo corporativo.

O que me surpreendeu foi outro dado.

Esse número avançou só 0,1 ponto percentual no último ano.

Zero vírgula um.

Falamos cada vez mais sobre igualdade, diversidade, equidade, pertencimento. Implementamos a pay transparency law — uma lei para trazer equidade salarial. Mas os dados oficiais mostram o oposto: segundo o 5° Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho, divulgado em abril de 2026, mulheres recebem em média 21,3% menos que os homens no setor privado. No primeiro relatório, em 2024, a diferença era de 19,4%. Desde então, só aumentou.

A transparência não corrigiu a desigualdade.

Ela apenas iluminou o quanto ela já estava lá — e crescendo.

No mercado de seguros existe um princípio básico: subestimar um risco não o elimina. Ele cresce silencioso — até virar sinistro. É exatamente isso que estamos fazendo com o talento feminino. Desigualdade salarial crescendo. Burnout aumentando entre mulheres sênior. Mães saindo silenciosamente do mercado após a maternidade.

Isso não é problema de RH.

É risco corporativo não precificado.

Pela primeira vez na história, mulheres relatam menos ambição do que homens para crescer na carreira. Mas ao se aprofundar, não é falta de desejo de crescer — é falta de sponsorship, medo de burnout e o peso invisível do que vão ter que abrir mão para chegar lá.

E aqui mora o paradoxo da super heroína.

A sociedade celebra a mulher que dá conta de tudo — do trabalho, dos filhos, da casa, da carreira, do cansaço em silêncio. Ela é admirada por ser incansável. Mas raramente alguém pergunta: por que ela precisa ser extraordinária para ocupar o que deveria ser ordinário?

O homem não precisa ser super-herói para estar lá. Nunca em 20 homens de carreira eu ouvi alguém perguntar para um homem se ele precisaria sair mais cedo de uma agenda para buscar um filho na escola, por exemplo.

Ainda assim, me considero privilegiada, pois eu cresci vendo mulheres na liderança. Mas também vi muitas perdendo a essência no caminho — tornando-se duras, sendo chamadas de “difíceis”. Hoje eu vejo diferente. Imagina o que elas tiveram que passar para chegar _e se sustentar lá _ em tempos ainda menos favoráveis do que os nossos.

Essas mulheres não eram o problema.

O sistema era.

Um claro exemplo disso é o que chamam de motherhood penalty — a penalidade invisível que mulheres com filhos carregam em progressão, salário e visibilidade. Como se cuidar de um ser humano do zero fosse evidência de menos comprometimento, e não de mais capacidade.

Porque a maternidade é uma das escolas de liderança mais intensas que existem. Gestão de crise, decisão sob pressão, empatia sem perder o foco — aprendemos isso muito antes de qualquer curso executivo.

Foi justamente a ausência de um modelo que integrasse humanidade e resultado que me fez começar a pesquisar sobre isso, observar com atenção e escrever.

Porque quando o modelo não existe, a gente cria.

A gente não espera o espaço ser aberto. A gente constrói enquanto caminha. E quando não tem escada, a gente ergue uma — e depois volta para buscar quem ainda está lá embaixo.

Pelo menos, é assim que deveria ser.

E é assim que faço votos que seja.

Escrevo isso por acreditar que o caminho é possível. E por querer que as que vierem depois de mim encontrem menos obstáculos do que nós encontramos. Que não precisem ser super-heroínas para pertencer. Que possam ser extraordinárias por escolha — e não por exigência.

Os dados mostram que empresas que priorizam o avanço de mulheres crescem mais rápido em todos os níveis. Não é pauta social — é resultado. O Brasil, com 32,2% de mulheres em liderança acima da mediana global, tem capacidade de liderar essa transformação — se decidir que zero vírgula um não é suficiente.

A super heroína não é o problema.

O problema é um sistema duvidoso e que sobrecarrega quem faz mais.

A escada que a gente constrói hoje é justamente sobre isso: um caminho onde a próxima não precisará ser super-heroína para chegar.

Ela vai chegar, com sua capa ou sem ela.

Aline Santana
Senior Associate na Mercer

Mulher. Mãe. Esposa. Filha. Curiosa por natureza. Otimista por escolha.

Há mais de 20 anos no mundo corporativo, construí minha carreira acreditando que pessoas são o centro de qualquer estratégia que realmente funciona. Sou apaixonada por liderança humana, por benefícios que fazem diferença real e por tudo que acontece na interseção entre estratégia de negócio e gente de verdade.

Na Mercer Multinational Advisory, ajudo empresas multinacionais a navegar estratégias de pessoas na América Latina — conectando culturas, traduzindo o global para o regional e liderando por influência.

Cheguei ao Harvard Executive Education autopatrocinada — única mulher nessa condição na sala — e saí com uma promessa: continuar aprendendo e contribuindo para uma liderança melhor. Hoje curso MBA em ESG & Negócios Sustentáveis na USP/Esalq com uma bolsa da Sou Segura, que enxergo como reconhecimento e responsabilidade.

Ser mãe me tornou uma líder melhor. E escrevo porque acredito em um ambiente de trabalho mais humano, mais justo e mais bonito para as que vierem depois de nós.

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