Mercado de Seguros

Roubo de cargas pressiona seguro de transporte no Rio e exige atuação estratégica

O avanço dos roubos de cargas no Rio de Janeiro tem aumentado a complexidade das operações de transporte e exigido uma análise cada vez mais detalhada dos riscos por parte do mercado de seguros. Levantamentos recentes mostram que o estado concentrou 44% dos prejuízos nacionais provocados por esse tipo de crime no primeiro trimestre de 2026, além de responder por cerca de 40% dos roubos de medicamentos registrados no país.

Na avaliação de Marcos Siqueira, presidente da Comissão de Transportes da FenSeg, o cenário não representa apenas uma concentração maior dos prejuízos no estado, mas também uma mudança no próprio perfil do risco. “As quadrilhas passaram a atuar de forma mais seletiva, direcionando as ações para cargas de alto valor e fácil comercialização, como medicamentos, além de ampliar a presença em trechos urbanos, onde se concentram as operações de distribuição”, afirma.

Segundo Siqueira, esse cenário exige uma avaliação mais detalhada de cada operação, considerando fatores como mercadorias transportadas, valores, rotas, horários, histórico de ocorrências e medidas de gerenciamento de riscos.

A partir dessa análise, podem ser ajustados limites, franquias, preços e protocolos de segurança. “Isso não significa que o seguro deixe de estar disponível, mas que as condições precisam ser compatíveis com a exposição apresentada”, ressalta.

Para a FenSeg, o seguro continua exercendo um papel essencial para evitar que o roubo de uma carga comprometa financeiramente o transportador, embarcador ou até mesmo a continuidade da cadeia de abastecimento. A proteção, no entanto, não substitui a necessidade de atuação do poder público no combate ao crime.

Na contratação ou renovação do seguro, a localização da empresa não é o único fator considerado. Para Siqueira, o desafio está principalmente na combinação dos riscos envolvidos em cada operação. “Cargas de elevado valor, rotas com grande incidência de roubos, entregas urbanas, concentração de mercadorias em um único veículo e histórico recorrente de perdas podem exigir uma avaliação mais detalhada”, explica.

Outro ponto importante é a qualidade das informações fornecidas à seguradora. Dados sobre rotas, valores transportados, frequência das viagens, motoristas, veículos, ocorrências anteriores e procedimentos de segurança ajudam a dimensionar corretamente a exposição.

Siqueira também destaca a importância de compreender as diferentes proteções disponíveis. O RC-DC, que cobre a responsabilidade do transportador pelo desaparecimento da carga em situações previstas na apólice, como roubo e furto, tornou-se obrigatório para o transportador rodoviário. Já o proprietário da mercadoria pode contratar o Seguro de Transporte Nacional para proteger seus próprios bens. As coberturas possuem funções distintas e podem atuar de forma complementar.

Nesse cenário, o Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR) ganha protagonismo. “A legislação determina que o RCTR-C e o RC-DC estejam vinculados a um plano estabelecido de comum acordo entre o transportador e a seguradora”, afirma o presidente da Comissão de Transportes da FenSeg.

Entre as medidas que podem ser adotadas estão planejamento de rotas e horários, rastreamento e monitoramento em tempo real, telemetria, controle de desvios de percurso, definição de pontos seguros de parada, treinamento de motoristas e protocolos de comunicação imediata. Para cargas mais visadas, como medicamentos, também podem ser necessários controles adicionais de acesso, custódia e transferência das mercadorias.

Na avaliação de Rogério Bruch, proprietário da Fetransporte, o agravamento do risco no estado já pode ser percebido de forma clara pelas seguradoras. Segundo ele, embora não exista uma base nacional consolidada que permita mensurar diretamente o impacto nas indenizações, a experiência de uma das cinco maiores seguradoras especializadas em transporte de cargas evidencia essa mudança.

“Os roubos e furtos ocorridos no Rio de Janeiro representaram 9% das indenizações pagas em 2023. Esse percentual subiu para 11,6% em 2024, alcançou 15,7% em 2025 e chegou a 28,4% apenas no primeiro semestre de 2026. Em apenas três anos, a participação do estado praticamente triplicou dentro da carteira analisada”, afirma.

Como consequência, segundo Bruch, o mercado passou a restringir sua capacidade de aceitação de riscos, com reflexos em taxas, limites segurados, franquias e necessidade de recorrer ao resseguro em determinadas operações.

Para as empresas, o desafio deixou de ser apenas encontrar uma seguradora disposta a operar no estado. O problema, agora, é obter condições economicamente viáveis. “O seguro continua existindo, mas ficou mais caro, mais restritivo e exige uma gestão operacional muito mais sofisticada”, resume.

Em um cenário de maior exposição, Marcos Siqueira destaca que o corretor tem papel fundamental para transformar as características da operação em uma estrutura de proteção adequada. “Ele ajuda a empresa a identificar suas exposições, organizar as informações necessárias para a análise da seguradora e compreender quais coberturas atendem ao transportador e quais protegem o proprietário da carga”, afirma.

Também cabe ao corretor orientar sobre limites, franquias, exclusões, obrigações previstas na apólice e exigências do Plano de Gerenciamento de Riscos.

Para Siqueira, comparar propostas apenas pelo preço pode gerar lacunas importantes de proteção. O trabalho do corretor, portanto, deve continuar após a contratação, acompanhando mudanças nas rotas, mercadorias, valores e frequência das viagens.

Bruch reforça essa visão. “Mais do que vender uma apólice, o corretor especializado estrutura operações sustentáveis, reduz a exposição ao risco e ajuda o transportador a permanecer competitivo mesmo em um dos ambientes logísticos mais complexos do país”, conclui.

Fonte: CQCS

Falar agora
Olá 👋
Como podemos ajudá-la(o)?