Saúde

Custos e judicialização pressionam planos de saúde

As despesas assistenciais das operadoras de planos de saúde cresceram 11,1% em 2025, passando de R$ 276,8 bilhões para R$ 307,5 bilhões. O avanço foi puxado principalmente pelas internações e terapias, cujos gastos aumentaram 15,6% e 15,5%, respectivamente. Os dados foram apresentados pela Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) durante workshop para jornalistas realizado nesta terça-feira (25), no Rio de Janeiro.

O aumento ocorre em um setor que alcançou 53,1 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares em junho de 2026, mas mantém uma taxa de cobertura próxima de 25% da população há mais de uma década. A projeção apresentada pela entidade é que o mercado encerre o ano com uma base entre 53,5 milhões e 54 milhões de pessoas. Os planos exclusivamente odontológicos, por sua vez, atendem mais de 36 milhões de brasileiros.

Durante o encontro, foi apontado que o desafio da saúde suplementar vai além da expansão do número de beneficiários: envelhecimento populacional, novas tecnologias, medicamentos de alto custo, fraudes, desperdícios e ações judiciais elevam as despesas e exigem mudanças nos modelos de remuneração, avaliação de tecnologias e coordenação do cuidado.

Atualmente, 664 operadoras atuam no segmento médico-hospitalar, mais da metade delas de pequeno porte. Juntas, são responsáveis por aproximadamente 2 bilhões de procedimentos por ano, ou 5,3 milhões por dia, entre consultas, exames, terapias, atendimentos ambulatoriais, internações e procedimentos odontológicos. A saúde suplementar representa 28% dos gastos com saúde no Brasil e o equivalente a 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo os números apresentados.

Em sua apresentação do workshop, o diretor-executivo da FenaSaúde, Bruno Sobral, abordou sobre o envelhecimento da população está entre as principais fontes de pressão sobre o sistema. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) apresentados pela entidade apontam uma redução de 12% no número de beneficiários entre 20 e 39 anos e um crescimento de 32% entre aqueles com mais de 60 anos.“Esse sistema é constantemente pressionado. O envelhecimento é uma nova realidade”, afirmou Sobral.

Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira com 80 anos ou mais deverá crescer 140% nas próximas duas décadas. Entre 47 países analisados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil deverá apresentar o quinto processo de envelhecimento mais acelerado até 2050.

Outro vetor é a incorporação de medicamentos, exames e procedimentos cada vez mais caros. A participação dos medicamentos nas despesas assistenciais das operadoras passou de 7,3%, em 2019, para 10,2%, em 2024, uma alta de quase 40% em cinco anos. “Avaliar tecnologia em saúde é um processo muito técnico e não se faz de uma hora para outra. Envolve estudo, regulação e incorporação, e isso afeta diretamente os custos”, disse. Na avaliação de Sobral, a ausência de modelos mais amplos de compartilhamento de risco com a indústria reduz o poder de negociação das operadoras e dificulta a previsibilidade do impacto financeiro provocado por tratamentos de alto custo.

Bruno também chamou a atenção para a diversidade do mercado em um cenário onde operadoras maiores têm mais capacidade para diluir riscos elevados, enquanto uma única terapia milionária pode comprometer de forma significativa as contas de uma empresa de menor porte. Ele destacou que essa diferença precisa ser considerada na elaboração de normas e políticas públicas.

“Quando se aumenta muito o nível de exigência sem identificar o problema de política pública que precisa ser resolvido, pode-se criar um ônus para a operadora grande, mas quebrar uma pequena”, alertou. Para o executivo, o movimento de consolidação tende a continuar, embora operadoras regionais de menor porte ainda tenham papel relevante em localidades que não comportam a atuação de várias empresas.

O economista e CEO da Universal Health Monitor, André Médici, destacou que as pressões observadas no Brasil também aparecem em outros sistemas de saúde. Demanda crescente, oferta mais cara, aumento das expectativas dos pacientes, escassez de profissionais e limitações de financiamento formam, segundo ele, um conjunto de forças que leva os gastos com saúde a crescerem acima da economia na maior parte do mundo.

André Medici, da Universal Health Monitor – Experiências internacionais apontam caminhos, não uma fórmula

“Quando existe um universo de necessidades ilimitadas e recursos finitos, é preciso começar o exercício da priorização”, afirmou. Para Médici, ampliar a cobertura exige escolhas explícitas, critérios técnicos e instrumentos adequados à realidade institucional de cada país.

O economista apresentou experiências dos Estados Unidos, Holanda, Alemanha, Inglaterra, Israel e de países latino-americanos. Os modelos variam entre seguros privados regulados, sistemas de seguro social e estruturas predominantemente públicas. Apesar das diferenças, as experiências consideradas mais bem-sucedidas combinam coordenação do cuidado, atenção primária, prevenção, avaliação de tecnologias, uso integrado de dados e incentivos ligados aos resultados obtidos pelos pacientes.

Uma das mudanças apontadas é a transição do pagamento por procedimento, conhecido como fee for service, para modelos baseados em valor. No primeiro formato, consultas, exames e terapias são remunerados individualmente, o que pode estimular o aumento do volume. No segundo, parte da remuneração é associada à qualidade e aos desfechos alcançados. Médici ponderou, entretanto, que a experiência internacional aponta para modelos híbridos, adaptados ao perfil da população e à disponibilidade de prestadores em cada região.

“A lição não é copiar os países, mas entender os mecanismos econômicos e adaptá-los ao contexto brasileiro”, resumiu. Entre as possibilidades estão o fortalecimento da atenção primária, a contratação orientada por resultados, o compartilhamento de riscos na incorporação de tecnologias e a interoperabilidade de informações clínicas.

A judicialização também ganhou espaço entre as preocupações apresentadas durante o workshop. As despesas das operadoras com decisões judiciais ultrapassaram R$ 5 bilhões no acumulado de 12 meses até o primeiro trimestre de 2026, alta de 11%. O montante correspondeu a 1,8% do total de indenizações pagas pelo setor. Apenas nos três primeiros meses deste ano, foram registrados 89 mil novos processos, crescimento de 20,5% em relação ao mesmo período de 2025.

Fonte: Sonho Seguro

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