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Conhecer para não normalizar: por que precisamos falar sobre mansplaining e manterrupting?

Por: Flávia Almeida

Foi um pouco antes da pandemia que meu letramento sobre o feminismo começou. Durante a pandemia, ele se intensificou. Passei a estudar e descobri que muitas situações violentas, que tentam minimizar mulheres, já haviam sido estudadas e nomeadas, dando significado a padrões específicos de comportamento.

Neste artigo, convido você a refletir sobre os conceitos de mansplaining e manterrupting, cunhados, respectivamente, por Rebecca Solnit, no livro Os Homens Me Explicam Tudo, e pela jornalista Jessica Bennett, em um artigo publicado na revista Time, em 2015.

Embora esses dois comportamentos ainda sejam pouco discutidos nas organizações, são amplamente vivenciados pelas mulheres no dia a dia. Eles acontecem nas salas de aula, nas reuniões de trabalho, na mesa do bar e até mesmo durante um almoço em família.

O mansplaining é o termo utilizado para descrever quando um homem explica algo a uma mulher de forma condescendente, presumindo que ela sabe menos sobre determinado assunto, mesmo quando ela é a especialista. A palavra resulta da junção de man (homem) e explaining (explicar). No Brasil, é comum que homens com esse comportamento sejam chamados de “macho palestrinha”.

Já o manterrupting refere-se ao comportamento de interromper uma mulher desnecessariamente durante uma conversa. 

Embora os dois conceitos sejam frequentemente citados juntos, eles descrevem comportamentos diferentes. O mansplaining está relacionado ao conteúdo da fala que explica algo que não precisava ser explicado. O manterrupting diz respeito à dinâmica da conversa que impede que a outra pessoa conclua seu raciocínio.

Imagine a seguinte situação.

Em uma reunião para discutir uma estratégia de marketing, Mariana, gerente da área há dez anos, apresenta os resultados de uma campanha e começa a explicar por que determinado indicador caiu no último trimestre.

Antes que ela conclua, Carlos a interrompe:

“Na verdade, deixa eu explicar como esse indicador funciona. Quando o engajamento diminui, a conversão também tende a cair…”

Ele passa vários minutos explicando exatamente o conceito que Mariana estava apresentando, utilizando exemplos básicos, como se ela não dominasse o assunto. Ao final, Mariana apenas responde: “Sim… foi exatamente isso que eu estava explicando.”

Por que isso é mansplaining?

Porque Carlos assume, sem qualquer motivo, que Mariana sabe menos do que ele, apesar de ela ser justamente a especialista no tema. Sua explicação é desnecessária e parte da presunção de que o conhecimento dela é inferior.

Agora imagine outra cena.

Um grupo de amigos está jantando e conversando sobre viagens. Juliana começa a contar uma experiência: “Quando eu fui para o Chile, descobri um restaurante incrível que…”

Pedro a interrompe: “Ah, Chile é sensacional! Eu fui para Santiago em 2022…”

Ele fala por alguns minutos sobre a própria viagem. Quando a conversa volta para Juliana, ela tenta retomar: “Então, como eu estava dizendo, esse restaurante…”

Pedro a interrompe novamente: “Mas você chegou a conhecer Valparaíso? Porque o melhor mesmo é…” Mais tarde, outro amigo pergunta: “Juliana, você conseguiu terminar a história do restaurante? “Ela sorri e responde: “Na verdade, ainda não.”

Essa é uma situação que ilustra o manterrupting: interrupções repetidas que impedem uma mulher de concluir seu raciocínio e reduzem seu espaço de fala.

Os dados nacionais mostram que esses comportamentos continuam sendo frequentes. Em 2022, pesquisa da Nielsen em parceria com a Opinion Box revelou que 48% das mulheres afirmaram já ter presenciado situações de mansplaining no trabalho, enquanto 54% relataram ter sofrido manterrupting. Dois anos depois, o Relatório Mulheres Brasileiras 2024 apontou números ainda mais expressivos: 57% das entrevistadas disseram já ter sofrido mansplaining e 59% afirmaram ter sido vítimas de manterrupting, evidenciando que essas práticas permanecem presentes no cotidiano das mulheres. 

É importante destacar que nem toda interrupção caracteriza manterrupting. Muitas interrupções têm caráter cooperativo e acontecem porque alguém deseja contribuir com a conversa ou demonstra entusiasmo pelo assunto. O manterrupting ocorre quando a interrupção é competitiva, impede que a outra pessoa conclua sua fala e acontece de forma recorrente, especialmente quando direcionada às mulheres.

O que proponho neste artigo é lançar luz sobre esses comportamentos para que possam ser compreendidos e transformados. Afinal, só conseguimos mudar aquilo que conhecemos.

Conhecer esses conceitos faz parte de um processo maior de tornar visíveis padrões de comunicação que, durante muito tempo, foram tratados como triviais, mas que, na prática, silenciam, inviabilizam e descredibilizam as mulheres.

Rebecca Solnit afirma que “sabemos menos quando pensamos erroneamente que sabemos algo do que quando reconhecemos que não sabemos.” 

É fundamental que homens e mulheres conheçam esses comportamentos e consigam identificá-los no cotidiano. Não podemos naturalizar atitudes que produzem impactos tão negativos e acabam fortalecendo práticas sexistas e misóginas.

Segundo Solnit, quando mulheres são constantemente interrompidas, desacreditadas ou tratadas como menos competentes, elas passam a duvidar de si mesmas, falam menos, participam menos dos debates e, muitas vezes, deixam de ocupar espaços de liderança.

Para contribuir com essa reflexão, compartilho duas estratégias que podem ajudar quando nos deparamos com esses comportamentos.

Devemos nomear a situação de forma respeitosa e objetiva — por exemplo, dizendo “Eu ainda não tinha terminado meu raciocínio” — permite retomar o espaço de fala sem necessariamente gerar conflito. Outra estratégia é redirecionar a conversa para quem foi interrompida: “Gostaria de ouvir o que a Ana estava dizendo.” Esse tipo de intervenção, especialmente quando parte de colegas ou lideranças, ajuda a reequilibrar a dinâmica da conversa e demonstra respeito pela contribuição de todas as pessoas.

Mansplaining e manterrupting não são apenas palavras novas para descrever situações antigas. São conceitos que nos ajudam a reconhecer comportamentos que, durante muito tempo, foram naturalizados e que afetam diretamente a confiança, a participação e o reconhecimento das mulheres em diferentes espaços.

Dar nome a esses padrões não significa transformar toda explicação em mansplaining ou toda interrupção em manterrupting. Significa desenvolver consciência para identificar quando a comunicação deixa de ser um espaço de troca e passa a reforçar relações de desigualdade.

Quanto mais conhecemos esses comportamentos, maior é nossa capacidade de interromper esse ciclo. 

Fontes: 

Os Homens Me Explicam Tudo – Rebeca Solnit

Isso tem nome – Quadro do Fantástico

Eu não sou um homem fácil – Netflix

Flávia Almeida
Analista de Treinamento e Desenvolvimento Sênior na Caixa Capitalização

Flávia Almeida é psicóloga, pós-graduada em Gestão de RH e especialista em Orientação de Carreira. Possui formação em Programação Neurolinguística (PNL) e atua há 20 anos em Recursos Humanos, construindo sua trajetória na conexão entre pessoas, negócios e desenvolvimento humano. Nos últimos cinco anos, dedica-se ao mercado segurador, onde atua em diferentes frentes de gestão de pessoas e cultura organizacional.

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