Futebol: primeira mulher a chefiar uma torcida recebe homenagens
Nascida no Rio de Janeiro, nos arredores da Ponte dos Marinheiros, em 1934, Dulce Rosalina foi a personificação de um dos muitos pioneirismos da história do Vasco e inspirou mulheres a perceber o estádio de futebol como um lugar de pertencimento.
Há exatos 70 anos, ela tornou-se a primeira mulher a presidir uma organizada no Brasil: a Torcida Organizada do Vasco, ou simplesmente TOV.
Seu primeiro ato na chefia da TOV foi arrecadar 200 mil cruzeiros para ajudar a construir as duas quadras de basquete. Nos primeiros anos, as reuniões da torcida aconteciam em sua própria casa, na Rua Aristides Lobo, no bairro do Rio Comprido. As portas de seu apartamento estavam sempre abertas para todo e qualquer torcedor.
À frente da torcida, Dulce Rosalina revolucionou a forma de torcer nos estádios. Foi a responsável por implementar o uso de papel picado e de serpentinas nas arquibancadas e por popularizar a utilização de baterias nas torcidas.
“Pode chover até granizo; se o Vasco jogar, seja onde for, lá estarei conclamando meus ‘filhos’, os jogadores, a se empenharem cada vez mais em busca do triunfo”, disse Dulce Rosalina, em 1959.
Alguns registros de Dulce são preservados pelo Centro de Memória do clube. Eles fazem parte do acervo do Museu Vasco da Gama. Além das imagens, há também um acervo digital disponível, com colunas que ela escrevia.
— Preservar a memória de Dulce é preservar uma parte importante da história do futebol. E isso significa ir além da ideia de que o patrimônio de um clube é formado apenas por troféus, camisas e documentos administrativos — afirmou Walmer Peres, Coordenador do Centro de Memória do Vasco, em contato com o ge.
Dulce Rosalina era presença frequente para além das arquibancadas. Bastante respeitada por jogadores e dirigentes, frequentava eventos do clube e até os treinos do time.
— Dulce participava ativamente da vida do Clube. Em 1960, sua popularidade ultrapassou as fronteiras do Vasco. Dulce venceu um concurso promovido pela Revista do Esporte, que a elegeu como a maior torcedora do futebol brasileiro — conta Walmer.
— Ela nos permite enxergar a torcida não como um elemento secundário do espetáculo esportivo, mas como um sujeito histórico. As arquibancadas possuem personagens, práticas, linguagens, formas de organização, relações políticas e memórias próprias. A trajetória de Dulce ajuda justamente a contar essa história — ressaltou o historiador.
Enredo de samba em 2027
O legado de Dulce Rosalina segue vivo. A torcedora será tema do Carnaval 2027 da G.R.E.S. União Cruzmaltina, do Rio de Janeiro.
O enredo “Dulce Rosalina: a mulher que vestiu coragem e presidiu a paixão” tratará sobre o simbolismo da torcedora na luta contra o preconceito para abrir caminhos para que mais mulheres ocupem espaços de liderança no esporte.
A torcedora faleceu em janeiro de 2004, em decorrência de problemas cardíacos. No mesmo ano de sua morte, Dulce Rosalina virou nome de rua, a poucas quadras do estádio São Januário.
— A história de um clube também está nas pessoas que construíram sua experiência cotidiana. Está nos atletas, dirigentes, funcionários, sócios, torcedores e nas diferentes comunidades que se formaram em torno do Vasco.
Fonte: Globo Esporte
