Você Ainda Se Reconhece no Espelho?
Por Carol Tejas
Existe um momento, comum a muitas mulheres no climatério, em que o espelho devolve uma imagem familiar e estranha ao mesmo tempo. Nada a ver com uma ruga nova ou um fio de cabelo branco: é a sensação de olhar para o próprio rosto e sentir que algo, por dentro, mudou de lugar. Como se a mulher que sempre soube quem ser precisasse, de repente, se apresentar de novo a si mesma.
Esse estranhamento tem, em parte, explicação hormonal. O climatério é a transição que antecede e sucede a menopausa, a data marcada pelos doze meses sem menstruação que, no Brasil, ocorre em média aos 48 anos, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Ao longo desse período, a produção de estradiol, o principal estrogênio do corpo, oscila e declina, afetando não só o sistema reprodutivo, mas também o cérebro e a forma como o corpo sustenta energia e bem-estar.
No dia a dia, isso aparece como névoa mental: a palavra que não vem na hora certa, ou aquela sensação de estar sempre um passo atrás do próprio ritmo. Para mulheres acostumadas a manter alta performance no trabalho, essa oscilação costuma ser desorientadora. A competência continua a mesma; o que muda é que o corpo passa, por um tempo, a processar informação de um jeito diferente, e isso pesa no rendimento e na confiança do dia a dia.
O mesmo vale para a libido, talvez a palavra mais mal compreendida dessa fase. Libido não é sinônimo de vida sexual: é energia vital, a disposição para viver e se interessar pelas coisas, o prazer que aparece no cotidiano. Quando ela parece ter diminuído, raramente é só o corpo. É, com frequência, uma mulher que passou anos entregando energia ao trabalho, à casa, aos filhos, ao relacionamento, e que esqueceu de perguntar o que ainda lhe dá prazer fora dessas funções. É comum reduzir esse sinal a uma questão exclusivamente de casal, quando, na verdade, ele fala sobre a relação da mulher com a própria vida. Recuperá-la pode começar longe da vida íntima, em um hobby abandonado, numa tarde sem compromisso marcado, em qualquer coisa simples que faça a diferença entre estar viva e estar apenas ocupada.
Névoa mental, espelho estranho e queda de energia costumam nascer do mesmo lugar: a pouca atenção que a mulher dedica a si mesma nessa fase. Ela já cobra bastante de si em disciplina e produtividade; o que falta é outro tipo de cuidado, mais silencioso — olhar para dentro e acolher o que está mudando, entender sem julgamento o que o próprio corpo tenta dizer. Pode ser tão simples quanto parar um minuto antes de dormir e perguntar como o dia realmente foi, em vez de como ele deveria ter sido.
É uma compreensão que a medicina também vem revisitando. A ginecologista Mary Claire Haver, autora do best-seller A Nova Menopausa, argumenta que gerações de mulheres normalizaram sintomas que têm explicação física real, e que merecem mais do que resignação silenciosa.
Entender o que está acontecendo no corpo importa, mas não substitui o que só pode vir de dentro: o momento de se olhar no espelho, literal ou não, e, em vez de cobrar, perguntar com genuína curiosidade o que aquela mulher, hoje, precisa para se sentir inteira de novo. É um processo que raramente se faz sozinho, e reconhecer isso também já é uma forma de cuidado.
