Veja o que esperar do mercado de planos de saúde em 2026
Sempre que um novo ano começa, a grande questão no mercado de saúde suplementar costuma ser uma só: de quanto será o reajuste dos planos de saúde. Antes mesmo de avançar, já vale responder: o cenário aponta para a continuidade da redução dos reajustes, mas ainda na casa de dois dígitos.
A preocupação com o reajuste é legítima, pois é algo que afeta diretamente beneficiários, empresas e operadoras. Em 2026, porém, o setor inicia o ano com um pano de fundo diferente, e com assuntos potencialmente mais relevantes do que o percentual de reajuste em si.
Depois de um longo período (pandemia e pós-pandemia) marcado por margens pressionadas, sinistralidade elevada e forte instabilidade regulatória, o mercado chega a 2026 após um ano de retomada do lucro operacional, redução da sinistralidade e reajustes em queda. Ao mesmo tempo, observa-se crescimento da base de beneficiários, ainda que concentrado em poucas operadoras e determinados tipos de contrato, e um ambiente político-regulatório que promete ser mais ativo e intenso.
Isso tudo transforma 2026 em um ano de escolhas decisivas, não apenas de ajustes táticos. É sobre isso que falaremos neste texto.
Operadoras em um novo ponto de partida: o desafio de pensar além do curto prazo
O ano de 2025 marcou uma inflexão importante para as operadoras. A combinação de reajustes ainda elevados (acima da VCMH), maior controle de custos, revisão de redes, mudanças contratuais e, em alguns casos, maior rigor na regulação, resultou em queda da sinistralidade e recuperação dos resultados financeiros. Esse fôlego, ainda que desigual entre os diferentes players, muda a posição de partida para 2026.
A questão central, agora, não é apenas manter o lucro, mas definir o que fazer com ele. Há um risco claro de que o setor repita um padrão histórico: utilizar períodos de melhora para recompor margens no curto prazo, sem atacar problemas estruturais que seguem latentes.
Por outro lado, 2026 pode representar uma oportunidade rara para decisões de longo alcance, especialmente em um mercado que envelhece rapidamente, enfrenta aumento de doenças crônicas e convive com crescente pressão social e política.
Por isso, volta ao centro do debate o tema dos investimentos em prevenção e cuidado contínuo. Atenção primária estruturada, coordenação do cuidado, gestão de crônicos, uso mais inteligente de dados assistenciais e modelos de remuneração baseados em valor são temas recorrentes no discurso do setor há anos, mas ainda pouco materializados em escala. A retomada do lucro cria, ao menos em tese, as condições para que essas iniciativas deixem de ser apenas projetos-piloto ou peças de marketing institucional.
A dúvida que se coloca para 2026 é se as operadoras estarão dispostas a assumir os riscos e os prazos mais longos associados a esse tipo de estratégia. Investir em prevenção significa aceitar que os resultados não aparecem imediatamente e que parte do retorno pode, inclusive, beneficiar o sistema como um todo, e não apenas a operadora que investiu. Em um mercado historicamente orientado pelo curto prazo, essa mudança de mentalidade talvez seja o maior desafio.
Crescimento puxado por PMEs: volume agora, problema depois?
Outro elemento central para entender o mercado em 2026 é o perfil do crescimento recente da base de beneficiários. Nos últimos anos, a expansão da saúde suplementar ocorreu majoritariamente por meio de contratos empresariais, com destaque para pequenas e médias empresas. Esse movimento ajudou a recompor receitas e ampliou rapidamente o número de vidas cobertas, mas também trouxe efeitos colaterais cada vez mais evidentes.
Do ponto de vista das operadoras, os contratos coletivos, especialmente PMEs até 29 vidas (que tem normativas específicas – RN 565), oferecem vantagens claras: maior flexibilidade de precificação, menos restrições regulatórias sobre reajustes e maior oportunidade comercial (principalmente para MEI até 5 vidas). Em um ambiente de pressão financeira, trata-se da solução mais rápida e acessível para crescer. O problema é que essa estratégia, quando adotada de forma predominantemente com foco em crescimento, tende a gerar instabilidades no médio e longo prazo.
Um dos reflexos mais visíveis é o aumento da judicialização. Beneficiários de planos coletivos, muitas vezes expostos a reajustes elevados e a possibilidade de rescisões unilaterais, recorrem cada vez mais ao Judiciário para garantir permanência, cobertura ou previsibilidade de custos. Esse fenômeno não apenas encarece o sistema, como também reforça a percepção de desequilíbrio contratual, alimentando o discurso regulatório e político contra as operadoras.
Além disso, contratos PME com baixa quantidade de vidas costumam ter maior rotatividade e menor fidelização. Empresas ou grupos familiares com CNPJ fecham, trocam de operadora ou reduzem o benefício diante de dificuldades econômicas, o que torna o crescimento menos estável do que os números brutos sugerem. A pergunta inevitável é se esse modelo de expansão é sustentável ou se apenas posterga um novo ciclo de tensão financeira e institucional.
Planos individuais em extinção
Esse debate se torna ainda mais relevante quando se observa a escassez crescente de planos individuais e familiares. A retração desse segmento não é nova, mas se intensificou nos últimos anos, com operadoras restringindo a comercialização ou simplesmente abandonando esse mercado. Para o consumidor, isso significa menos opções e maior dependência de vínculos empregatícios para acessar a saúde suplementar. Para o sistema, cria-se uma distorção estrutural que tende a gerar pressão regulatória adicional.
Em 2026, o contraste entre o crescimento dos planos coletivos e o esvaziamento dos planos individuais deve ganhar ainda mais destaque no debate público, especialmente se os resultados financeiros das operadoras continuarem positivos (além da recente consulta pública da ANS sobre revisão técnica das carteiras individuais vinculada à comercialização de produtos nessa modalidade).
O fator político: regulação mais dura em um setor lucrativo
Se o ambiente econômico melhora, o ambiente político-regulatório tende a se tornar mais exigente. Esse é um padrão recorrente no setor de saúde suplementar, e em 2026 não deve ser diferente. A chegada de Wadih Damous à presidência da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) sinaliza uma postura mais voltada ao consumidor, com discurso firme em defesa dos beneficiários, o que pode inclusive resultar em maior disposição para confrontar as operadoras.
Essa mudança de tom ocorre em um momento sensível. Com o lucro das operadoras em recuperação, o setor volta ao radar do Congresso Nacional. Já se observa a criação de frentes parlamentares dedicadas ao tema e a retomada das discussões sobre a revisão da Lei dos Planos de Saúde, um debate que ganha força sempre que há a percepção de desequilíbrio entre os interesses das empresas e dos consumidores.
O risco, para o mercado, é entrar novamente em um ciclo de respostas reativas: operadoras se defendem, reguladores endurecem, o Judiciário é acionado e o ambiente de insegurança jurídica se intensifica. Em um contexto como esse, decisões de longo prazo ficam ainda mais difíceis, e o foco retorna ao curto prazo e à contenção de danos.
Por outro lado, 2026 também pode ser um ano de reposicionamento institucional. Operadoras que conseguirem demonstrar compromisso real com prevenção, equilíbrio contratual, transparência e qualidade assistencial tendem a ter mais legitimidade no debate público. Em um ambiente político mais atento, a estratégia regulatória deixa de ser apenas jurídica e passa a ser também reputacional e social.
2026: mais do que um novo reajuste, um teste de maturidade
Ao olhar para 2026, fica claro que o mercado de planos de saúde entra no ano com desafios que vão muito além do percentual de reajuste. A combinação de lucro em recuperação, crescimento concentrado em PMEs e maior pressão política cria um cenário em que decisões adiadas nos últimos anos se tornam inevitáveis.
O setor pode optar por repetir velhos padrões, apostando em soluções rápidas e defensivas, ou pode usar o momento para corrigir distorções históricas e investir em um modelo mais sustentável. Em última instância, 2026 será menos lembrado pelo índice de reajuste aprovado e mais pelas escolhas estratégicas que operadoras, reguladores e formuladores de políticas públicas decidirem fazer agora.
Fonte: Portal Arquitetos da Saúde
