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Tive a crise dos 40 aos 50. E posso provar.

Por Cristina Tseimatzidis

Quando recebi o convite para escrever este artigo, pensei em vários assuntos: escassez hídrica, seguro e varejo, curtailment, seguro de crédito, garantia e grandes riscos. Depois de tantos anos no mercado de seguros, assunto não faltaria.

Mas, neste ano em que completo 50 anos, quis falar sobre outra coisa: a estrada que nos leva a saber aquilo que sabemos.

A profissional que hoje fala sobre tantos temas não foi construída apenas pela qualificação, pelos cargos ou pelos anos de mercado. Foi construída por uma estrada menos linear, de experiências, erros, acertos e recursos às vezes escassos e, em outras, vastos. mas nem sempre bem aproveitados.

Houve distrações, momentos em que poderia ter feito mais e não fiz. Escolhas excelentes e outras nem tanto. Uma vida normal. 

Tive a crise dos 40 aos 50. E posso provar. Não foi exatamente uma crise de dez anos. Foi uma longa revisão.

Há algum tempo, fui ao velório do pai de um amigo de infância, um tio querido. Ali me dei conta de uma obviedade, provavelmente já havia vivido metade da minha vida. A segunda metade traria perdas para as quais talvez eu não estivesse preparada. Mas tinha o outro lado, ainda havia metade. Novas experiências, possibilidades e recomeços.

Nesse percurso comecei a compreender melhor uma palavra que usamos muito, plenitude. Somos levadas a associá-la à posição profissional, estabilidade financeira, reconhecimento, família e conquistas. Como se existisse um checklist invisível que nos autorizasse a dizer “consegui”.

Para as mulheres, essa conta pode ser mais complexa. Aprendemos a ocupar espaços que nem sempre foram pensados para nós. E ocupar espaço é diferente de passar a vida tentando provar que merecemos estar nele.

Hoje penso que plenitude não chega com a idade, a carreira, o dinheiro ou as conquistas. Estar plena, para mim, é estar feliz, realizada e livre.

Talvez uma das liberdades da maturidade seja assumir as próprias escolhas e entender que a estrada do “bem-feito” é pessoal.

Trabalhar com riscos me ensinou algo sobre isso. Analisamos cenários, antecipamos possibilidades e decidimos com as informações disponíveis. Ainda assim, o inesperado acontece. Na vida, não é diferente.

Não controlamos tudo, mas somos responsáveis pela forma como atravessamos cada fase. Gosto de pensar que precisamos fazer bem-feitas as nossas missões para não ficarmos voltando casas, como em um videogame, carregando culpas para as fases seguintes.

E “bem-feito” não significa perfeito. É fazer com consciência e coerência com os próprios valores. É reconhecer erros, terminar ciclos e estar disponível para o que vem depois.

Também descobri que crescer não é necessariamente subir. Na vida profissional, somos ensinadas a enxergar crescimento como movimento vertical, ter mais responsabilidade, reconhecimento, posição. Mas crescer também é aprofundar. É saber mais e reconhecer o que não sabemos. É formar pessoas, abrir espaço e externalizar nossos valores sem deixar que a validação do outro determine quem somos.

Talvez o protagonismo esteja nisso, em assumir a autoria da própria estrada.

Não precisamos esperar os 50 para nos sentirmos plenas. Completar 50, 60 ou 70 também não garante plenitude. Ela não está na idade, no cargo, no patrimônio ou na imagem de sucesso que projetamos.

Cada uma de nós vai descobrindo o que precisa concluir, abandonar e ainda deseja começar. Sem uma régua única de sucesso ou a trajetória do outro como parâmetro para a nossa.

Isso não é sobre etarismo ou empregabilidade aos 50, nem apenas sobre liderança ou carreira. É sobre crescimento, e crescer não tem idade.

Talvez plenitude seja isso: reconhecer a estrada percorrida, estar inteira onde estamos e continuar disponível para o que ainda pode vir.

Eu tive a crise dos 40 aos 50. E posso provar. Mas talvez a melhor coisa que ela tenha me ensinado é que chega um momento em que percebemos que não precisamos mais provar. Nem aos 50. Nem em idade alguma.

Cristina Tseimatzidis

Cristina Tseimatzidis é mulher, mãe da Katherini e interessada em histórias de vida. Também sou advogada, com mais de 20 anos de experiencia no mercado segurador. Atualmente ocupo a Diretoria Executiva de Soluções Financeiras e Garantias na WTW Brasil.

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