Sete mulheres que atuaram na Independência do Brasil foram apagadas pela história
Celebrado nesta segunda-feira (7/9), o Dia da Independência do Brasil marca a declaração da emancipação política do país, em 7 de setembro de 1822. A data é tradicionalmente associada à figura de Dom Pedro I e ao episódio do Grito do Ipiranga. No entanto, a participação das mulheres nesse processo histórico, por muito tempo, foi relegada às sombras da história.
Apesar das restrições impostas às mulheres naquele período, diversas personagens desafiaram os papéis sociais estabelecidos e tiveram participação significativa nas lutas pela independência.
As trajetórias dessas mulheres ajudam a ampliar a compreensão sobre o processo de emancipação política do Brasil e a reconhecer a contribuição das mulheres para a construção da história do país.
Maria Quitéria de Jesus
Maria Quitéria de Jesus se tornou uma das principais personagens femininas das lutas pela Independência na Bahia. Para participar dos combates, precisou romper com as limitações impostas às mulheres e se alistar no Exército disfarçada de homem, utilizando a identidade de “Soldado Medeiros”.
Sua habilidade com as armas e sua atuação nos combates fizeram com que sua identidade fosse posteriormente reconhecida. Quitéria participou das batalhas pela Independência na Bahia e chegou a liderar um grupo de mulheres.
Em 1823, foi promovida a cadete e reconhecida como heroína da Independência. Dom Pedro I também a condecorou com a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro. Apesar do reconhecimento recebido durante a vida, Maria Quitéria morreu em 1853, em Salvador, praticamente no anonimato.
Hipólita Jacinta Teixeira de Melo
Antes mesmo das batalhas que marcaram o processo de Independência, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo já participava da articulação política contra o domínio português.
Ela foi a única mulher conhecida a participar da Conjuração Mineira, em 1789. Proprietária de uma fazenda, Hipólita cedeu o espaço para que os participantes do movimento pudessem se reunir e organizar a revolta.
Foi também uma das primeiras pessoas a tomar conhecimento da prisão de Tiradentes e avisou outros integrantes do movimento sobre o risco de serem delatados. Após seu marido ser condenado ao exílio, teve seus bens confiscados. Quando conseguiu recuperá-los, distribuiu parte deles entre pessoas pobres.
Bárbara de Alencar
Bárbara de Alencar teve atuação política em movimentos que antecederam e atravessaram o processo de Independência. Nascida no Ceará, era filha de mãe indígena e pai português e atuava como fazendeira.
Em 1817, participou da Revolução Pernambucana, movimento que defendia ideias republicanas. Anos depois, esteve envolvida na Confederação do Equador, em 1824.
Durante a Revolução Pernambucana, Bárbara participou da liderança da revolta popular no Crato, no Ceará, onde foi proclamada uma República Independente, por sua atuação política, acabou presa. Sua trajetória demonstra como mulheres também estiveram envolvidas na defesa de projetos políticos que questionavam a estrutura colonial e o poder central.
Urânia Vanério
A participação de Urânia Vanério aconteceu por meio da escrita,: ainda menina, aos 10 anos, ela testemunhou a violência provocada pelos conflitos entre tropas portuguesas e brasileiras na Bahia.
Entre os episódios que presenciou estava o assassinato da religiosa Joana Angélica de Jesus, morta por soldados portugueses diante do Convento da Lapa, em Salvador.
Indignada com a situação, Urânia escreveu o panfleto Lamentos de uma Baiana, texto que denunciava a violência praticada pelas tropas portuguesas e defendia a Independência do Brasil. Durante cerca de dois séculos, a autoria do texto permaneceu desconhecida, até ser atribuída à jovem pela historiadora Patrícia Valim.
A história de Urânia também evidência como a participação das mulheres podia ocorrer fora dos campos de batalha. Por meio da escrita e da circulação de ideias, elas também contribuíram para o debate político de seu tempo.
Maria Felipa de Oliveira
Mulher negra, marisqueira e trabalhadora da Ilha de Itaparica, na Bahia, Maria Felipa de Oliveira é lembrada pela participação na resistência contra as tropas portuguesas.
Ela teria liderado o grupo conhecido como “Vedetas da Praia”, formado por homens e mulheres que atuaram na defesa da ilha. Sua experiência como marisqueira, pescadora e comerciante contribuiu para sua atuação durante os conflitos.
Maria Felipa utilizou seus conhecimentos sobre a região e participou de ações contra os portugueses em um contexto no qual o controle do abastecimento e do território era fundamental para o andamento dos combates. Sua trajetória representa o protagonismo de mulheres negras e das camadas populares nas lutas pela Independência.
Maria Leopoldina
Entre as mulheres que participaram do processo de Independência, Maria Leopoldina ocupa uma posição particular. Primeira imperatriz do Brasil, ela atuou diretamente nos bastidores políticos que antecederam a ruptura com Portugal.
Leopoldina tinha formação política e intelectual e demonstrou capacidade de compreender a situação do Brasil em um período de intensa instabilidade. Segundo registros históricos reunidos pelo Instituto para Reforma das Relações Estado-Empresa (IREE), ela teve influência na nomeação de José Bonifácio como ministro, aconselhou Dom Pedro a romper com Portugal e assinou o decreto de Independência.
Sua atuação também esteve relacionada ao período em que Dom Pedro permaneceu em São Paulo, enquanto Leopoldina assumiu a regência no Rio de Janeiro. A participação da imperatriz ajuda a mostrar que a Independência não foi resultado de uma única decisão ou de um único personagem, mas de uma série de articulações políticas.
Ana Lins
Ana Lins, alagoana, também participou das lutas políticas que marcaram o período de emancipação do Brasil. Sua trajetória está relacionada às revoluções de 1817, conhecida como Revolução Pernambucana, e de 1824, a Confederação do Equador.
Ela integrou um contexto de intensas disputas políticas no Nordeste, quando diferentes grupos questionavam o domínio português e, posteriormente, a organização política do Império brasileiro.
Sua presença na história reforça que a participação feminina não se limitou à atuação de mulheres diretamente ligadas à família imperial ou às batalhas. Mulheres de diferentes regiões e posições sociais também estiveram envolvidas nas transformações políticas que marcaram as primeiras décadas do século XIX.
Fonte: Gov.br
