Quando a maternidade não acontece: entre expectativas pessoais e a trajetória profissional
Por Juliana Carreira
Após anos tentando viver a maternidade na faixa etária considerada “ideal” e de conviver diariamente com perguntas, conselhos e projeções de familiares, amigas, colegas de trabalho e até desconhecidos, passei a refletir sobre o quanto esse desejo era realmente meu e o quanto havia sido moldado pelas definições e pelo contexto nos quais cresci.
Faço parte da geração dos Millennials — nascidos entre o início da década de 1980 e meados da década de 1990 —, a primeira a crescer com a internet presente no cotidiano e marcada pela busca por propósito no trabalho e por um melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Ainda assim, durante grande parte da minha juventude, parecia existir um roteiro quase obrigatório a ser seguido: estudar, construir uma carreira, casar e ter filhos.
Este artigo não pretende defender uma escolha ou outra. Tampouco busca responder se a maternidade é ou não essencial para a felicidade de uma mulher. Meu objetivo é compartilhar uma reflexão pessoal sobre como vivi a experiência de quando a maternidade não acontece, e seus impactos na minha trajetória profissional e na construção da minha identidade.
O que começou como um plano cercado de expectativas transformou-se, aos poucos, em uma jornada marcada por perdas e incertezas. As gestações naturais que não evoluíram despertaram uma busca incessante por explicações.
Enquanto isso, o tempo seguia seu curso. Enfrentei ao mesmo tempo uma das maiores dores da minha vida: a perda da minha mãe. A idade deixava de ser apenas um número e passava a representar uma contagem regressiva. No meio desse percurso, a pandemia adiou os planos. Depois, a fertilização in vitro (FIV) trouxe consigo uma renovação das esperanças e a sensação de que ainda havia algo a ser tentado.
Mas o corpo nem sempre corresponde ao desejo ou ao esforço investido. A cada resultado frustrado, era preciso seguir adiante, convivendo com os desgastes impostos pelo processo. Até que, em determinado momento, reconheci os meus limites. Voltei o olhar para mim, pois muitas transformações já haviam acontecido – no meu corpo, na minha mente, na minha família e na minha carreira.
Durante os anos de tentativas para engravidar, minha evolução profissional acontecia em paralelo. No entanto, à medida que minhas responsabilidades aumentavam e eu assumia novas posições de liderança, também crescia o nível de exigência — tanto por parte da organização quanto, principalmente, de mim mesma. Eu me cobrava intensamente para entregar sempre o melhor resultado possível.
Quando entendi sobre os meus limites, interrompi minha carreira. Eu estava em uma fase profissional em que havia sido reconhecida por uma liderança feminina, recebido uma excelente oportunidade e vivia em um ambiente de confiança que favorecia minhas questões pessoais. Ainda assim, para mim, a situação passou a ser vivida de forma binária: ou a carreira, ou a maternidade.
Passei a associar o insucesso das tentativas ao fato de eu “só trabalhar”, de não dedicar tempo suficiente aos médicos, aos exames, ao repouso e a tudo o que me diziam ser necessário para viabilizar uma gestação.
No entanto, o tempo continuava seu curso, mais uma vez, e o afastamento do trabalho que inicialmente parecia um fracasso, foi me permitindo ampliar o olhar ao meu redor e reconectar-me comigo mesma.
Essa experiência de interrupção da carreira deixou de ser apenas sobre ausência e passou a ser sobre consciência. Comecei a compreender que os valores que a maternidade despertava em mim — o cuidado, o acolhimento e a doação ao outro — poderiam se expressar de outras formas na minha vida, para além das expectativas frequentemente impostas às mulheres, como se fosse um caminho único.
No papel de líder, encontrei uma forma concreta de maternar ao olhar para o desenvolvimento de cada pessoa da minha equipe, ao reconhecer potencial, apoiar trajetórias e contribuir para o crescimento de profissionais com mais confiança. Nas ações de voluntariado no terceiro setor, o maternar se manifesta no acolhimento, na escuta e na presença com impacto social coletivo.
Nas relações familiares, como madrasta, madrinha, esposa ou filha, esse cuidado é cotidiano e com vínculos que não seguem padrões tradicionais, mas que são profundamente significativos.
Com o tempo, compreendi que o maternar não está restrito à maternidade biológica. Ele se revela na forma como escolhemos estar no mundo, nas responsabilidades que assumimos, nas pessoas com quem nos relacionamos e no legado que deixamos.
