Parentalidade consciente: uma estratégia silenciosa para transformar pessoas, empresas e o futuro
Por Fernanda Bardela
Como o apoio das empresas à parentalidade fortalece as relações familiares, gera impactos positivos na saúde mental, na cultura organizacional e no futuro da sociedade
Temos visto, especialmente nos últimos anos, empresas investindo cada vez mais em saúde mental, diversidade, desenvolvimento de lideranças, cultura e clima organizacional. Mas existe um fator que ainda recebe pouca atenção, apesar de impactar diretamente esses pilares: a parentalidade.
Todos os dias, milhões de mães e pais conciliam os desafios da criação dos filhos com as exigências da vida profissional. Quando não encontram apoio, os impactos ultrapassam o ambiente familiar e chegam ao trabalho na forma de estresse, sobrecarga emocional, absenteísmo, queda de produtividade e dificuldades nos relacionamentos e na adaptação às mudanças.
Esse cenário revela uma oportunidade ainda pouco explorada. Apoiar a parentalidade vai muito além de oferecer um benefício aos colaboradores: é um investimento estratégico no desenvolvimento humano, na saúde mental e na construção de uma cultura organizacional mais saudável.
Antes de serem profissionais ou líderes, todas as pessoas foram crianças. As experiências vividas na infância influenciam o desenvolvimento emocional e social, moldando a forma como cada indivíduo aprende, trabalha, lidera, toma decisões, desenvolve competências como empatia, cooperação e comunicação, enfrenta desafios e constrói relações. Como costumo dizer: “A infância é um chão em que se pisa a vida inteira.”
A realidade, porém, ainda está distante desse ideal. Dados da UNICEF mostram que cerca de seis em cada dez crianças são submetidas regularmente a práticas de disciplina violenta dentro de casa. Essa experiência aumenta o risco de transtornos mentais, dificuldades de aprendizagem e da perpetuação dos ciclos de violência na vida adulta.
Fortalecer as famílias com ferramentas para construir relações mais respeitosas, por meio da parentalidade consciente, é reconhecido internacionalmente como uma das estratégias mais eficazes para prevenir esses impactos.
No Brasil, essa pauta também avança. A Lei Federal nº 14.826/2024, que instituiu a Política Nacional de Parentalidade Positiva, reconhece que promover relações familiares saudáveis é uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade. Da mesma forma, a atualização da NR-1 amplia o olhar das empresas ao consolidar a saúde mental como responsabilidade estratégica. Embora não trate especificamente da parentalidade, reforça a importância de atuar sobre fatores que afetam o bem-estar dos trabalhadores, e a parentalidade é, sem dúvida, um deles.
O futuro das empresas e da sociedade tem a mesma origem: as relações humanas. Pessoas que se sentem apoiadas em um dos papéis mais importantes de suas vidas tendem a apresentar maior equilíbrio emocional, engajamento, sentimento de pertencimento, produtividade e vínculo com a organização.
Por isso, investir em programas de apoio à parentalidade vai além de uma ação de bem-estar: é uma estratégia de gestão de pessoas e de sustentabilidade dos negócios. Ao incorporar essa agenda, as empresas fortalecem sua cultura, sua marca empregadora, sua capacidade de atrair e reter talentos e contribuem para a formação de adultos emocionalmente mais preparados para educar a próxima geração.
Mais do que uma ação de cuidado, apoiar a parentalidade é uma decisão estratégica. Afinal, organizações são feitas de pessoas, e pessoas são resultado das relações que viveram desde a infância.
Porque o futuro do trabalho também começa dentro de casa.
Nota final: Quando falo em parentalidade, não me refiro à busca por pais perfeitos, mas à construção intencional de relações baseadas no respeito, na conexão, na compreensão do desenvolvimento infantil e na promoção da saúde emocional de toda a família. É essa qualidade das relações que sustenta o desenvolvimento saudável das crianças e influencia a sociedade que estamos formando.
