Mulheres Negras e Liderança Comunitária: soluções ambientais e sociais que nascem das favelas
Por Lysandra Martins Moura
Nas favelas brasileiras, onde os desafios ambientais e sociais se entrelaçam diariamente, a liderança das mulheres negras tem sido decisiva para a construção de soluções coletivas, sustentáveis e profundamente enraizada no território. Segundo o Ministério da Igualdade Racial, mulheres negras representam 28% da população brasileira, mas é o grupo mais exposto às desigualdades estruturais, especialmente em áreas periféricas. Ainda assim, são elas que sustentam redes de cuidado, articulam respostas comunitárias e lideram iniciativas ambientais que impactam milhares de vidas.
Dados do IPEA mostram que mais de 60% das famílias em favelas são chefiadas por mulheres, e a maioria dessas chefes de família são mulheres negras. Essa realidade revela não apenas a sobrecarga, mas também a centralidade dessas mulheres na organização comunitária. Em territórios onde o Estado historicamente falha, são elas que garantem proteção, alimentação, educação, cultura e mobilização ambiental.
Com a criação do Ministério das Periferias, em 2023, o governo federal reconheceu oficialmente que as soluções para desigualdades urbanas precisam partir das próprias periferias. Em suas publicações, o Ministério destaca que as mulheres negras são protagonistas das ações de mitigação climática e de enfrentamento ao racismo ambiental, pois vivenciam diretamente os impactos de enchentes, deslizamentos, insegurança hídrica e ondas de calor. Essa vivência territorial se transforma em conhecimento prático e estratégico.
Nas favelas, a liderança feminina negra se expressa em múltiplas frentes. São elas que organizam cozinhas solidárias, hortas comunitárias, grupos de reaproveitamento de resíduos, projetos de educação ambiental e ações de segurança alimentar. São também responsáveis por iniciativas culturais que fortalecem identidade, ancestralidade e pertencimento — elementos essenciais para a resiliência comunitária. O Ministério da Igualdade Racial aponta que projetos liderados por mulheres negras têm 40% mais engajamento comunitário do que iniciativas externas, justamente por nascerem da realidade local.
Essa liderança também se manifesta na articulação política. Mulheres negras das favelas têm ocupado espaços de conselhos, conferências e redes de mobilização climática, trazendo para o debate nacional a perspectiva da justiça climática. Publicações como o Plano Nacional de Igualdade Racial reforçam que o enfrentamento às mudanças climáticas no Brasil depende da inclusão das mulheres negras como formuladoras de políticas públicas, e não apenas como beneficiárias.
A ancestralidade é outro eixo fundamental dessa atuação. Saberes de matriz africana, práticas comunitárias, espiritualidade e memória coletiva orientam decisões, fortalecem vínculos e ampliam a capacidade de resposta diante de crises ambientais e sociais. A ancestralidade funciona como tecnologia social, conectando cuidado, território e sustentabilidade.
No contexto do mercado segurador, essa discussão é urgente. Eventos climáticos extremos aumentam riscos, ampliam vulnerabilidades e exigem políticas de proteção mais inclusivas. As mulheres negras das favelas, por conhecerem profundamente o território, podem contribuir para estratégias de prevenção, mitigação e educação em risco. Incorporar suas vozes não é apenas uma questão de diversidade: é uma necessidade para construir soluções que realmente funcionem.
As mulheres negras das favelas são arquitetas de futuro. Criam caminhos onde não há estrada, constroem redes onde há ausência, sustentam vidas onde o Estado falha. Sua liderança comunitária é uma força que transforma o presente e projeta um amanhã mais justo, sustentável e humano. Reconhecer, valorizar e amplificar essa atuação é essencial para qualquer projeto que deseje enfrentar desigualdades e promover justiça social e ambiental no Brasil.
