Mulheres conquistam espaço onde tradição sempre falou mais alto
Levantamento divulgado pelo Sebrae em abril de 2026, com base em dados da PNAD Contínua e da Receita Federal, mostra que o país atingiu o maior número de mulheres à frente de negócios da série histórica, com 10,4 milhões de empreendedoras. Somente em 2025, mais de 2 milhões de pequenos negócios foram abertos por mulheres, o equivalente a 42% de todas as novas empresas criadas no período.
Para a empresária Débora De Landa, profissional com mais de 26 anos de atuação no mercado joalheiro e fundadora da joalheria Kether, o crescimento do empreendedorismo feminino também reflete uma mudança na percepção sobre liderança em setores considerados tradicionais.
Segundo ela, as mulheres deixaram de ocupar espaços apenas como sucessoras de negócios familiares e passaram a construir marcas próprias, apoiadas em conhecimento técnico, relacionamento e visão estratégica. “O empreendedorismo feminino deixou de ser uma exceção em muitos segmentos. Hoje vemos mulheres ocupando posições de liderança porque construíram credibilidade ao longo do tempo. Em mercados como o de joias, onde confiança é um fator decisivo, essa trajetória faz toda a diferença”, afirma.
Embora atividades como comércio de joias, metais preciosos e bens de alto valor ainda sejam marcadas por forte tradição familiar, especialistas observam uma renovação no perfil dos empreendedores. A digitalização do varejo, a profissionalização da gestão e a mudança no comportamento do consumidor abriram espaço para empresas lideradas por mulheres que conciliam experiência técnica e novos modelos de relacionamento com os clientes.
Oriunda de uma família tradicional do setor joalheiro, Débora iniciou a carreira comercializando semijoias, atuou na importação de prata e, posteriormente, direcionou sua operação para joias em ouro 18 quilates. Atualmente, lidera a Kether, que integra loja física, comércio eletrônico e vendas ao vivo para atender consumidores em diferentes regiões do país. “Não foi apenas uma mudança de produto. Cada etapa exigiu estudar o comportamento do consumidor, entender o momento do mercado e adaptar o negócio sem perder a essência. Permanecer por tantos anos no mesmo segmento exige capacidade de evolução constante”, diz.
A consolidação do empreendedorismo feminino também acompanha mudanças na forma como consumidores escolhem onde comprar. Em segmentos de maior valor agregado, procedência, transparência e atendimento personalizado ganharam peso semelhante ao próprio produto.
Na avaliação da profissional, esse movimento favorece empresas que investem em relacionamento de longo prazo. “Quem compra uma joia está adquirindo algo que representa investimento, memória e significado. A decisão envolve confiança. Por isso, acredito que a experiência construída antes, durante e depois da venda se tornou tão importante quanto a peça em si.”
Segundo ela, ferramentas digitais, como as vendas ao vivo, ampliaram o alcance das empresas, mas não substituíram a necessidade de proximidade. “A tecnologia aproximou pessoas que antes estavam distantes geograficamente. Mas ela só funciona quando existe transparência. O cliente continua comprando de pessoas nas quais acredita.”
Além do aumento no número de empresas abertas por mulheres, o Sebrae aponta que o rendimento médio das empreendedoras alcançou, em 2025, o melhor resultado já registrado pela série histórica, enquanto a diferença de rendimento em relação aos homens vem diminuindo ao longo dos últimos anos. O levantamento também mostra avanço significativo na escolaridade das donas de negócios brasileiras.
Para a especialista, esses indicadores mostram que o empreendedorismo feminino deixou de ser apenas uma alternativa profissional para se consolidar como um movimento de transformação econômica.”As mulheres estão mostrando que conseguem construir negócios duradouros em qualquer segmento. Mais do que abrir empresas, elas estão criando marcas sólidas, capazes de atravessar mudanças de mercado sem perder identidade. Esse talvez seja o maior indicador de amadurecimento do empreendedorismo feminino.”
Fonte: Débora De Landa
