Líderes respondem à provocação de Taylor Swift sobre poder, gênero e liderança
Estou tão cansada de correr o mais rápido que posso, pensando que chegaria lá mais rápido se fosse um homem.”
Lançada em 2019, The Man, de Taylor Swift, atravessou o pop para se transformar em um espelho incômodo de estruturas corporativas ainda profundamente desiguais. No mercado de seguros, setor que se orgulha da gestão técnica de riscos, a pergunta provocada pela música permanece atual: mulheres e homens são avaliados da mesma forma quando ocupam cargos de liderança?
Inspirada pela letra da canção, esta reportagem especial ouviu executivas que ocupam posições estratégicas no setor para cruzar vivência prática, dados institucionais e percepções de quem conhece o mercado por dentro. O resultado revela avanços importantes, mas também expõe um paradoxo persistente: o seguro é feminino na base, mas ainda masculino na decisão.
Liderar sendo mulher ainda custa mais
Com 20 anos de experiência em cargos de gestão, Hilca Vaz, diretora técnica de seguro de vida e previdência da Mapfre, afirma que o tratamento desigual não desapareceu. Ele apenas se tornou mais sofisticado.
“Sim, ainda existe, embora muitas vezes de forma sutil e não declarada. Ao longo dos meus 20 anos como gestora, percebi que homens e mulheres ainda são avaliados de maneira diferente. Comportamentos como assertividade, firmeza ou ambição, que costumam ser vistos como qualidades naturais em homens, muitas vezes são interpretados de outra forma quando vêm de mulheres.”
Segundo ela, além da entrega profissional, mulheres seguem expostas a julgamentos paralelos que raramente recaem sobre homens. Aparência, estilo de liderança e equilíbrio entre vida pessoal e carreira continuam entrando na conta.
Hilca reconhece avanços, especialmente em empresas com políticas estruturadas de diversidade, como a própria Mapfre, mas alerta que tratar todos de forma igual não resolve distorções históricas. “Equidade passa por reconhecer essas diferenças e agir de forma consciente para corrigi-las”, afirma.
A mesma atitude, leituras diferentes
A percepção se repete na fala de Caroline Santos, gestora de RC Geral da Akad Seguros. Para ela, a letra de The Man traduz com precisão o cotidiano das mulheres no setor.
“Atitudes semelhantes ainda são interpretadas de formas diferentes dependendo de quem está na cadeira. O que costuma ser visto como firmeza e liderança em homens, muitas vezes é lido como rigidez quando vem de uma mulher.”
No caso de mulheres pretas, o desafio é ainda maior. Caroline relata que a autoridade é mais questionada, a comunicação mais julgada e a régua de exigência mais alta. “O caminho não é igual para todos”, resume.
Os dados ajudam a explicar essa sensação. De acordo com Caroline Santos, embora as mulheres representem cerca de 55% da força de trabalho no mercado de seguros brasileiro, a presença feminina cai significativamente nos cargos executivos, girando em torno de 30% (5º Estudo Mulheres no Mercado de Seguros no Brasil, ENS/Sou Segura).
Para Caroline, esse descompasso não é fruto de falta de qualificação, mas de estruturas que ainda operam sob modelos tradicionais de poder. “Diversidade de gênero precisa ser vista como estratégia inteligente de negócio. Amplia visões, melhora decisões e torna as organizações mais resilientes.”
Os números não mentem
Thereza Moreno, presidente do Comitê de Auditoria e Riscos da Prudential do Brasil Seguros de Vida, reforça a discussão com dados que deixam pouco espaço para interpretações subjetivas.
De acordo com Thereza Moreno, mulheres são maioria na base operacional, com 58%, mas a representatividade cai para 39% nos cargos de gerência e 21,2% na diretoria. A média salarial masculina é 35,4% maior, e apenas 16,1% dos Conselhos de Administração são compostos por mulheres (dados da Confederação Nacional das Seguradoras – CNseg).
Segundo ela, a desigualdade persiste apesar do avanço educacional feminino. As mulheres já superam os homens no ensino superior, mas seguem encontrando barreiras na progressão de carreira.
“Não são dadas as mesmas oportunidades para mulheres com o mesmo grau de experiência e competência. Existe preconceito, vieses na seleção e uma cobrança desproporcional sobre o cuidado com a família, que não recai da mesma forma sobre os homens”, afirma.
Para Thereza, o chamado teto de vidro é sustentado, em parte, pelo medo de perder privilégios historicamente masculinos. Ainda assim, ela se mostra otimista. “O mercado de trabalho precisa das mulheres para enfrentar desafios complexos como clima, segurança cibernética e conflitos globais. Empresas que não entenderem isso não sobreviverão.”
O paradoxo do seguro: feminino na operação, masculino na decisão
Liliana Caldeira, professora e coordenadora da Escola de negócios e seguros, aprofunda o debate com dados do 5º Estudo Mulheres no Mercado de Seguros, realizado pela ENS em parceria com a Sou Segura.
De acordo com Liliana Caldeira, o setor de seguros brasileiro é majoritariamente feminino, com 55% das posições ocupadas por mulheres, mas apenas 1% chega ao C-level, enquanto os homens ocupam 2,4 vezes mais posições de diretoria (5º Estudo Mulheres no Mercado de Seguros, ENS/Sou Segura).
A desigualdade salarial também se mantém praticamente inalterada ao longo dos anos. Em 2024, homens ganharam em média R$ 9,7 mil, enquanto mulheres receberam R$ 6,8 mil, cerca de 70% do salário masculino (5º Estudo Mulheres no Mercado de Seguros, ENS/Sou Segura).
Segundo o estudo, 85% das mulheres permanecem em funções operacionais ou administrativas, enquanto apenas 7% alcançam a gestão. A maternidade segue como fator de penalização profissional, com 67% das mulheres relatando impacto negativo na carreira por serem mães (5º Estudo Mulheres no Mercado de Seguros, ENS/Sou Segura).
“O setor é feminino na operação, mas masculino na decisão. Se fôssemos homens, seríamos o cara. Como somos mulheres, precisamos provar três vezes mais”, resume.
Liderança no topo e mudança estrutural
A experiência de quem ocupa o mais alto nível da gestão reforça que a desigualdade de gênero na liderança do setor ainda exige atenção contínua. Para Patricia Chacon, CEO da Porto Seguro, o mercado vive um momento de transformação, mas segue marcado por percepções distintas sobre homens e mulheres em posições de poder.
Segundo a executiva, ainda existem leituras diferentes sobre o exercício da liderança conforme o gênero, o que torna fundamental manter o tema da equidade em pauta. O avanço é real, mas, como ela destaca, “o caminho ainda exige consistência e compromisso”.
No caso da Porto, Patricia ressalta resultados que destoam do padrão do setor. Atualmente, 44% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres, e o conselho de administração é majoritariamente feminino. Para ela, esse cenário reflete uma cultura que valoriza a escuta, o desenvolvimento de talentos e a diversidade como força estratégica. “Ambientes mais diversos são também mais inovadores e preparados para os desafios do futuro”, afirma.
Ao abordar a distância entre a presença feminina na base e a baixa representatividade na alta gestão, Patricia observa que o obstáculo não está na qualificação. Dados citados por ela, da Escola de Negócios e Seguros (ENS), mostram que as mulheres representam 54,4% da força de trabalho no setor, mas ocupam apenas 38,6% das gerências, 21,2% das diretorias e 16,1% dos conselhos de administração. Para a CEO, esses números evidenciam que “o desafio está no acesso às oportunidades”.
Ela destaca que reverter esse cenário exige ações intencionais e estruturadas. Na Porto, esse compromisso se materializa em iniciativas voltadas ao desenvolvimento de lideranças diversas, como os programas Lidera, Afro Horizontes e Florescer, além de um conselho composto por quatro mulheres entre seus sete membros. “Lideranças mais plurais fortalecem não apenas as empresas, mas todo o setor”, pontua.
Sobre as barreiras que ainda impactam a ascensão feminina, Patricia aponta estereótipos de liderança, dificuldades na conciliação de múltiplos papéis e a ausência de redes de apoio estruturadas. Há também, segundo ela, um julgamento desproporcional sobre o comportamento das mulheres em cargos de liderança. Para transformar esse cenário, defende mudanças estruturais, com investimento em capacitação e criação de ambientes de escuta e pertencimento. “Um ambiente mais inclusivo amplia oportunidades e torna as organizações mais preparadas para o futuro”, conclui.
Um mercado em transição, mas ainda desigual
As executivas concordam em um ponto central: o mercado de seguros avançou no discurso, mas ainda caminha lentamente na prática. Vieses de comportamento, desigualdade salarial, ausência de mulheres nas trilhas de sucessão, resistência cultural e baixa diversidade racial seguem como barreiras estruturais.
Ainda assim, há sinais claros de transformação. A maior presença feminina em posições de liderança já demonstra impactos positivos em inovação, gestão de riscos e proximidade com o cliente. Diversidade deixou de ser apenas pauta social e se consolidou como questão estratégica.
No fim, a pergunta lançada por Taylor Swift continua ecoando nos corredores do setor: “E se eu fosse um homem?”
A resposta segue incômoda. Mas é justamente esse incômodo que move a mudança.
As mulheres do mercado de seguros não querem ser “o cara”.
Querem ser líderes, com o mesmo respeito, a mesma leitura de competência e as mesmas oportunidades.
Não pedem privilégio. Pedem paridade.
Não buscam concessão. Exigem equidade.
E, sobretudo, trabalham para que o vidro deixe de existir.
Fonte: CQCS
