Artigos

Entre apostar e proteger: o que as bets revelam sobre a cultura do seguro no Brasil

Por Camilla Barbosa Pessoa de Melo

O contraste entre apostas e seguros revela um desafio que vai além da renda: ampliar a cultura de proteção, inovar nos produtos e reduzir barreiras à contratação.

No Café CVG-SP, realizado em 18 de agosto, uma comparação feita por Edson Franco, presidente da FenaPrevi, ficou comigo: talvez o brasileiro contrate pouco seguro não apenas por falta de dinheiro. Já sabemos que há um componente cultural importante na relação do brasileiro com o seguro.

Os dados ajudam a dimensionar essa provocação. Segundo o Banco Central, em 2024 as transferências mensais via Pix para empresas de apostas online variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões. No mesmo ano, os seguros de pessoas arrecadaram R$ 72,7 bilhões em prêmios e o seguro automóvel, R$ 57,66 bilhões. Somados, alcançaram cerca de R$ 130,36 bilhões no ano. Mantido ao longo do ano o patamar mensal observado nas bets, o volume transferido ficaria entre R$ 216 bilhões e R$ 252 bilhões, chegando a representar quase o dobro da arrecadação anual conjunta desses dois segmentos de seguros.

Os números não são grandezas equivalentes: nas apostas, tratamos de transferências brutas; nos seguros, de prêmios. Mas a comparação é valiosa como evidência comportamental. A possibilidade de um ganho imediato parece mobilizar recursos com mais facilidade, enquanto a proteção financeira, cujo valor está justamente em antecipar-se a um risco futuro, ainda encontra resistência. Ou seja, conclui-se que não se trata de uma comparação contábil, mas, sim, comportamental.

Outro dado chama atenção. Em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões via Pix para empresas de apostas. Isso não permite afirmar que o benefício social foi utilizado nas bets, mas mostra que esse mercado alcança também famílias de menor renda.

O ponto não é fazer julgamento moral sobre quem aposta. É perceber que a explicação de que o brasileiro não contrata seguro apenas porque “não tem dinheiro” é insuficiente. Mas também não basta pedir ao consumidor que desenvolva uma cultura de proteção. O próprio mercado precisa repensar produtos e sua comercialização.

A saúde, por exemplo, foi apontada pelo DataSenado como a principal preocupação de 29% dos brasileiros. O seguro de vida pode conversar melhor com essa dor, mostrando que também oferece proteção financeira durante a vida. Coberturas para doenças graves, incapacidade, internação hospitalar e perda de renda já existem no Brasil. Em outros mercados, seguros de vida também contemplam eventos ligados a doença e incapacidade. Há espaço, portanto, para inovação e para apresentar ao consumidor soluções que ele perceba como úteis agora, e não apenas após a morte.

A essas barreiras culturais e de mercado somou-se, na previdência privada, um desestímulo econômico. O IOF de 5% incide sobre a parcela dos aportes anuais em VGBL que ultrapassar R$ 600 mil por pessoa física. Em 2025, a captação líquida da previdência privada aberta caiu 93,5% ante 2024, para cerca de R$ 4 bilhões. No primeiro semestre de 2026, os aportes recuaram mais 5,6%, para R$ 77,4 bilhões. A FenaPrevi aponta o IOF entre os fatores dessa retração.

Há expectativa, por isso, em torno de 2027, quando a Reforma Tributária prevê a extinção do IOF-Seguros. A mudança pode retirar uma barreira importante, mas não resolverá, sozinha, o problema.

O desafio é de duas vias: ampliar a cultura de proteção e, ao mesmo tempo, inovar para que o consumidor enxergue o seguro como solução para necessidades concretas da vida presente. Seguro não serve apenas para proteger aquilo que deixamos. Serve também para preservar renda, autonomia, patrimônio e qualidade de vida de quem continua aqui.

Referências bibliográficas:

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Brasília, set. 2024. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/conteudo/relatorioinflacao/EstudosEspeciais/EE119_Analise_tecnica_sobre_o_mercado_de_apostas_online_no_Brasil_e_o_perfil_dos_apostadores.pdf. Acesso em: 19 ago. 2026.

FENAPREVI – FEDERAÇÃO NACIONAL DE PREVIDÊNCIA PRIVADA E VIDA. Seguros de Pessoas: arrecadação em 2024 soma R$ 72,7 bilhões. São Paulo, 28 fev. 2025. Disponível em: https://fenaprevi.org.br/noticias/seguros-de-pessoas-arrecadacao-em-2024-soma-r-72-7-bilhoes. Acesso em: 19 ago. 2026.

SUPERINTENDÊNCIA DE SEGUROS PRIVADOS (SUSEP). Síntese Mensal – Dezembro de 2024. Rio de Janeiro, dez. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/susep/pt-br/central-de-conteudos/dados-estatisticos/relatorios-de-analise-e-acompanhamento-dos-mercados-supervisionados-1/anos/SinteseMensalDez2024.pdf/@@display-file/file. Acesso em: 19 ago. 2026.

SENADO FEDERAL. Pesquisa DataSenado revela as principais preocupações dos brasileiros. Brasília, 1 mar. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/datasenado/materias/pesquisas/pesquisa-datasenado-revela-as-principais-preocupacoes-dos-brasileiros. Acesso em: 19 ago. 2026.

SUPERINTENDÊNCIA DE SEGUROS PRIVADOS (SUSEP). Seguro de Pessoas. Brasília, 13 jul. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/susep/pt-br/copy_of_planos-e-produtos/seguros/seguro-de-pessoas. Acesso em: 19 ago. 2026.

EUROPEAN INSURANCE AND OCCUPATIONAL PENSIONS AUTHORITY (EIOPA). Definitions. Frankfurt am Main, 4 jul. 2024. Disponível em: https://www.eiopa.europa.eu/rulebook/idd-insurance-distribution-directive/article-2645_en. Acesso em: 19 ago. 2026.

SUPERINTENDÊNCIA DE SEGUROS PRIVADOS (SUSEP). Novo Decreto atualiza regra de IOF para planos VGBL. Rio de Janeiro, 13 jun. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/susep/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2025/junho/novo-decreto-atualiza-regra-de-iof-para-planos-vgbl. Acesso em: 19 ago. 2026.

FENAPREVI – FEDERAÇÃO NACIONAL DE PREVIDÊNCIA PRIVADA E VIDA. Previdência privada tem o pior resultado da captação líquida dos últimos anos. São Paulo, 2 fev. 2026. Disponível em: https://fenaprevi.org.br/noticias/previdencia-privada-tem-o-pior-resultado-da-captacao-liquida-dos-ultimos-anos. Acesso em: 19 ago. 2026.

FENAPREVI – FEDERAÇÃO NACIONAL DE PREVIDÊNCIA PRIVADA E VIDA. Aportes na previdência privada aberta caem R$ 5 bilhões no primeiro semestre. São Paulo, 13 ago. 2026. Disponível em: https://fenaprevi.org.br/noticias/aportes-na-previdencia-privada-aberta-caem-r-5-bilhoes-no-primeiro-semestre. Acesso em: 19 ago. 2026.

TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO (TCU). Reforma Tributária e o Papel do TCU. Brasília, 2025. Disponível em: https://sites.tcu.gov.br/reforma-tributaria/. Acesso em: 19 ago. 2026.

Camilla Barbosa
Sócia na BPM Advocacia

É sócia do Barbosa Pessoa de Melo Advocacia. Bacharelada em Direito pela Centro Universitário AESO - Barros Melo (UNIAESO) em 2010. Pós-graduada em Direito Público (Faculdade Estácio); MBA em Contratos de Seguros e Inovação (ENS); Curso de Extensão de Direito do Seguro e Resseguro (FGV). Mediadora Humanista habilitada pelo MEDIAH (Centro de Mediação Humanista). Integrante da Comissão de Direito Securitário da OAB/PE e OAB/SP. Membro da AIDA, da “Sou Segura” e da ANSP. Possui ampla experiência no contencioso de massa no direito securitário dos setores de automóveis, vida, residencial, responsabilidade civil, entre outros.

Falar agora
Olá 👋
Como podemos ajudá-la(o)?