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E se o profissional do futuro for aquele que sabe fazer perguntas?

Por: Fernanda Chilotti

Tenho ouvido que, para continuarmos relevantes no mercado de trabalho em um mundo atravessado pela Inteligência Artificial, precisaremos aprender a fazer bons prompts. Concordo, mas certamente por uma razão diferente.

Prompt é, em verdade, uma pergunta, uma instrução, ou seja, a capacidade de formular com clareza aquilo que se quer compreender, investigar, aprender ou construir.

No entanto, fazer uma boa pergunta nunca foi uma competência exclusivamente técnica. Saber fazer uma boa pergunta demanda repertório.

E o repertório não se constrói em vídeos de TikTok, Reels e Textos de correntes de WhatsApp.  Ele é construído nos livros que lemos, nas pessoas com quem conversamos e nas experiências que tivemos. Vem de escutar quem pensa diferente, de conhecer outras ideias, de errar e de observar pessoas. Tem uma dose de vida analógica necessária nessa construção.

É esse repertório que nos permite perceber que uma resposta pode estar perfeitamente escrita e, ainda assim, estar errada. Vejo aqui um dos paradoxos da Inteligência Artificial: nunca tivemos tanto acesso a respostas justamente quando precisamos saber fazer perguntas.

A IA pode resumir páginas, analisar dados e gerar hipóteses em segundos. Mas ela não elimina o pensamento lógico, crítico e estratégico. Ousaria dizer que, quanto mais sofisticada a tecnologia, maior deveria ser a sofisticação intelectual de quem a utiliza.

Enquanto avançamos na capacidade das máquinas e em IAs, indicadores de aprendizagem humana preocupam. O PISA 2022 registrou, entre os países da OCDE, a maior queda observada entre duas edições em matemática e uma redução importante em leitura, quando 50% dos estudantes não alcançaram o patamar mínimo.

Isso não permite concluir que “a humanidade está ficando menos inteligente”. Seria simplificar um fenômeno complexo. Mas deveria nos inquietar.

Isso não prova que a IA esteja nos tornando menos inteligentes. Mostra que sua potência pode ampliar nossa capacidade ou reduzir nosso esforço cognitivo, dependendo de como a utilizamos.

A IA ampliará nossa inteligência ou será uma tecnologia para a qual terceirizaremos parte dela?

Pensamento crítico não é desconfiar de tudo. É saber perguntar: de onde veio essa informação? Qual é a fonte? Que evidência a sustenta? Existe outra interpretação? Estou buscando informação ou confirmação? Isso é misinformation ou disinformation?

E talvez a pergunta mais desconfortável: eu saberia perceber se a IA estivesse errada?

Além de repertório, necessitamos ter curiosidade. Na diversidade das fontes que consumimos. No hábito da leitura. Na experiência acumulada. Na capacidade de estabelecer conexões e de mudar de opinião diante de evidências melhores.

Ou seja, mais e mais doses de uma vida analógica, de atenção às bolhas e gestão de manada dos algoritmos.

O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, reforça essa direção: competências ligadas à IA crescem em importância, mas pensamento criativo, curiosidade, resiliência e aprendizagem contínua seguem centrais.

A IA poderá nos oferecer milhares de respostas, no entanto, alguém ainda terá que decidir quais perguntas merecem ser feitas.

Durante muito tempo, o mercado premiou quem tinha respostas.

Talvez estejamos entrando em uma época em que a vantagem estará com quem cultivou repertório suficiente para admitir que ainda não sabe e, claro, a inteligência para fazer a próxima boa pergunta.

Fernanda Chilotti
CEO & Founder na Chilotti Advice & Consulting

Neta de Izabel, Filha de Izilda e de Oxum, Casada com Adriana e apaixonada por viagens, café e vinhos. Há mais de 20 anos atuando com Pessoas, hoje CHRO e Trusted Advisor atuo com parcerias sustentáveis ​​com Sr Leadership e C-Suite, via Aconselhamento, Mentoria e estratégias de negócios forjadas em DE&I. Trago na bagagem organizações como Banco Santander, Henkel, Messer Gases, Marsh McLennan, para mencionar algumas.

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