E depois do crachá? Educação financeira, bem-estar e a beleza da fase pós-carreira
Por Carla Schibuola
Educação financeira, bem-estar e a beleza da fase pós-carreira
Por muitos anos, a vida gira em torno da carreira corporativa. A agenda cheia, as reuniões, as metas, os projetos que nos desafiam, as viagens a trabalho. O crachá abre portas, organiza o dia, traz uma sensação de pertencimento. Mas chega um momento em que começamos a perceber que a próxima fase está se aproximando. E ela pode ser exatamente aquela etapa que sempre sonhamos viver. Que fase é essa?
Aos 56 anos, atuando em uma multinacional, eu me vejo nesse ponto de virada. Depois de décadas construindo carreira, cuidando da filha, da casa, equilibrando prazos e expectativas, passei a me perguntar: como quero que sejam meus próximos anos? Menos pressa, mais propósito. Menos correria, mais presença. Mais tempo para mim, para viagens, para malhar, para cursos, leituras, projetos pessoais, talvez um trabalho voluntário que converse com a minha história.
Foi então que um segundo olhar se impôs: o financeiro. Estou diante da transição entre acumulação e desacumulação. Por muito tempo, o foco foi guardar, investir, construir patrimônio. Agora, a pergunta muda: como usar o que construí de forma inteligente, sábia e sustentável? Como garantir que essa nova fase, tão desejada, seja vivida com liberdade e tranquilidade, e não com medo de faltar?
Essa experiência pessoal me fez entender o quanto esse tema precisa estar conectado às ações de wellbeing das empresas. Falar de bem-estar não é apenas abordar programas de saúde ou iniciativas pontuais. É abrir espaço para que cada pessoa possa planejar a vida além do crachá, com um olhar integrado para os pilares físico, social, emocional, financeiro e espiritual.
Um programa de preparação para a aposentadoria, alinhado ao wellbeing, começa pelo cuidado com o emocional. Encerrar um ciclo de carreira é também encerrar um papel social, uma identidade que carreguei por muitos anos. Ter terapeutas ou profissionais preparados para acolher esse momento ajuda a lidar com o possível vazio pós-carreira, com a reorganização da rotina, com a descoberta de novos papéis e sentidos.
Outro ponto essencial é o apoio para mapear talentos e habilidades. Coachs ou profissionais de RH podem ajudar a enxergar o que sei fazer bem, o que gosto de fazer e como isso pode se traduzir em uma vida ativa e plena após a carreira corporativa. Para algumas pessoas, isso pode significar um pequeno negócio, uma consultoria, um trabalho pontual que ainda gera renda. Para outras, que já construíram uma reserva financeira confortável, pode significar dedicar tempo a causas sociais, projetos voluntários, atividades artísticas, ensino ou mentoria.
E, claro, nada disso caminha sem educação financeira. Entender os gastos do dia a dia, os benefícios que hoje a empresa proporciona, as reservas acumuladas, o patrimônio constituído, o tempo até a aposentadoria oficial e o estilo de vida desejado é fundamental. Surgem muitas questões: vendo o segundo apartamento, a casa de praia ou de campo? Vou morar num apartamento menor, com condomínio mais barato? Transformo ativos ilíquidos em recursos líquidos? Invisto em fundos imobiliários? Alugo o imóvel e complemento a renda? Faço uma doação em vida para minha filha? Como preservo o patrimônio de mim mesma? Como ter liquidez e, ao mesmo tempo, responsabilidade ao administrar esses recursos? A reserva do meu plano de previdência complementar realmente complementa a renda que desejo?
Essas perguntas podem tirar o sono se não forem encaradas com disciplina. Quando olho para os números com antecedência e clareza, a ansiedade dá lugar à sensação de protagonismo. Deixo de temer o futuro e passo a desenhá-lo.
Tudo isso conversa diretamente com a ideia mais ampla de bem-estar: sentir-me inteira, respeitada em minha trajetória e apoiada na construção do que vem depois. A fase pós-carreira não precisa ser um salto no escuro. Ela pode ser o momento em que finalmente alinho tempo, valores e escolhas. Em que acordo sem despertador em alguns dias, mas com muita vontade de viver os meus novos projetos.
Se você, assim como eu, está chegando nessa idade de repensar o ritmo e lidar com a chegada dessa nova fase, talvez já tenha sentido esse chamado interno: e agora, como quero viver o meu depois? A boa notícia é que esse momento pode ser leve e cheio de significado, desde que olhado com carinho, planejamento e verdade. Não é simples, não é fácil, em algumas consultas com os especialistas vai doer, mas é profundamente recompensador.
A aposentadoria não precisa ser vista como fim. Pode ser o início de um capítulo mais autêntico, em que o trabalho, se existir, ocupa outro lugar e o bem-estar deixa de ser conceito para se tornar prática diária. O convite que deixo, a partir da minha própria jornada, é este: cuidar das finanças, das emoções e dos projetos de vida para, quando esse momento chegar – e ele vai chegar, e isso é um bom sinal, rs – , eu possa dizer com serenidade: estou pronta para viver essa nova fase! E você, já começou a desenhar a sua?
