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Quando uma mulher deixa de desaparecer de si

Por: Karla Joeny Ayres Costa

Durante muitos anos, aprendi a existir a partir das necessidades de outras pessoas. O casamento, a maternidade, a casa, os filhos e as responsabilidades ocuparam progressivamente espaços que eu não percebia estar deixando vagos dentro de mim. A perda de identidade raramente acontece de forma abrupta. Muitas vezes, instala-se silenciosamente, confundida com amor, responsabilidade, dedicação e cuidado. Eu continuava funcionando, resolvendo, acolhendo e sustentando. Até perceber que já não sabia responder com clareza a uma pergunta aparentemente simples: quem sou eu quando não estou cuidando de alguém?

Essa pergunta não produziu respostas imediatas. Produziu autorreflexão.

Hoje compreendo que esse foi um dos movimentos mais importantes da minha trajetória. Refletir sobre si não significa permanecer indefinidamente olhando para a própria história, tampouco transformar sofrimento em contemplação. Uma autorreflexão verdadeiramente transformadora precisa produzir consciência: reconhecer padrões, identificar necessidades, compreender escolhas, perceber limites e assumir responsabilidade sobre aquilo que ainda pode ser modificado.

Meu próprio processo terapêutico me ensinou, inicialmente, a observar pensamentos, crenças e padrões de comportamento que durante muito tempo pareciam simplesmente fazer parte de quem eu era. Aprendi a nomear aquilo que antes aparecia apenas como culpa, cansaço, inadequação ou excesso de responsabilidade. A técnica me ofereceu estrutura. A autorreflexão me ensinou o que fazer com aquilo que eu conseguia enxergar.

Com o tempo, essa compreensão se ampliou. Não bastava reconhecer padrões; era preciso também recuperar a capacidade de me escutar. Entrar em contato com minhas necessidades, meus limites, meus desejos e minhas escolhas exigiu um movimento diferente: menos voltado para corrigir-me e mais comprometido em compreender-me.

Foi nesse ponto que conceitos como autenticidade, autonomia, escuta e capacidade de escolha passaram a fazer profundo sentido para mim. Percebi que compreender a si mesma não é um exercício abstrato. É uma forma de reorganizar a própria existência.

Por isso, quando penso hoje em uma jornada psicológica eficaz e produtiva, não estou falando de desempenho, velocidade ou resultados mensuráveis. Falo de um processo que produz consciência suficiente para orientar mudanças reais. Eficaz porque amplia a compreensão. Produtivo porque transforma compreensão em escolha.

Para uma mulher que durante anos organizou grande parte da própria vida em torno do cuidado, esse processo pode ser particularmente difícil. Desejar estudar, trabalhar, construir novos projetos, estabelecer limites ou simplesmente perguntar “o que eu quero?” pode inicialmente provocar culpa. Eu precisei compreender que a maternidade e os vínculos construídos ao longo da vida são partes fundamentais da minha história, mas não precisam constituir sua totalidade.

Somos constituídas por relações, mas não precisamos desaparecer dentro delas.

Também precisei rever minha própria ideia de resiliência. Durante muito tempo, ser forte parecia significar suportar. Hoje compreendo de outra forma. Resiliência também é reconhecer quando algo deixou de ser sustentável. É revisar escolhas. É aceitar vulnerabilidades. É admitir ambivalências sem transformar nenhuma delas em fracasso.

Minha trajetória contém medo, perdas, dúvidas e decisões difíceis. A vulnerabilidade não desapareceu quando me tornei mais forte. O que mudou foi minha relação com ela. Deixei de enxergá-la apenas como fragilidade e passei a reconhecê-la também como fonte de informação sobre mim mesma.

Essa compreensão atravessa hoje minha formação como psicóloga, mas exige cuidado. Minha experiência pessoal não me autoriza a supor o que outra mulher sente, tampouco transforma minha história em modelo de intervenção. Ao contrário: quanto mais compreendo meu próprio percurso, mais reconheço a importância da singularidade do outro.

Em atendimentos supervisionados realizados em instituições idôneas, tenho aprendido justamente isso: experiência pessoal pode ampliar sensibilidade, mas precisa caminhar ao lado de técnica, estudo, supervisão, ética e autorreflexão profissional.

Talvez esteja aí uma das aprendizagens mais importantes dessa jornada. Autorrefletir não é apenas perguntar quem fomos ou por que sofremos. É perguntar o que faremos com aquilo que conseguimos compreender sobre nós mesmas.

A técnica me ensinou a observar meus padrões. A autorreflexão me ensinou a atribuir sentido a eles. E minha formação em psicologia continua me ensinando que ajudar outra mulher não significa indicar a direção que ela deve seguir, mas favorecer condições para que possa escutar-se, compreender-se e escolher com maior consciência.

Voltar a mim não significou abandonar os papéis que fizeram parte da minha história. Significou deixar de desaparecer dentro deles.

Talvez seja essa, para mim, a função mais potente da autorreflexão: transformar experiência em consciência, consciência em escolha e escolha em possibilidade de existência.

*Mãe do Lucas, Cairo e Tárcio e tutora da Cacau, mas também Linguista, professora de educação básica, graduanda em Psicologia USF e pós graduanda em Psicologia Política USP. 

Karla Joeny Ayres Costa
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