Governança não é controle. É confiança.
Por Juliana Meleti
Reflexões sobre liderança feminina e o novo papel do Jurídico no mercado de seguros.
Quando iniciei minha trajetória no Direito, imaginava que meu papel seria interpretar normas, comparecer em audiências, estruturar contratos e ajudar empresas a navegar por questões jurídicas complexas. O que eu não esperava era passar boa parte do meu tempo, anos depois, em discussões estratégicas sobre crescimento, riscos emergentes, tecnologia e decisões de negócio. Essa evolução reflete uma transformação maior no mercado de seguros e transformou a forma como aprendi a exercer liderança.
Ao longo da carreira, atuei em projetos envolvendo diferentes países, culturas e ambientes regulatórios. Em todos eles, uma lição se repetia: os melhores resultados apareciam quando as áreas trabalhavam juntas desde o início, e não quando o Jurídico era acionado apenas na etapa final de uma negociação, quando já era tarde para endereçar riscos de forma eficiente. Com o tempo, passei a enxergar que nossa maior contribuição não estava em apontar vulnerabilidades, mas em ajudar as equipes a encontrar caminhos seguros para alcançar seus objetivos.
Lembro de uma discussão estratégica que envolvia diferentes áreas, interesses e expectativas. Minha intenção era apresentar os riscos legais e regulatórios envolvidos. Mas rapidamente ficou claro que a questão central não era só jurídica. O desafio era construir uma solução que equilibrasse inovação, governança, segurança e objetivos de negócio. No fim do processo, o resultado mais importante não foi o parecer produzido nem a cláusula negociada. Foi o alinhamento construído entre as equipes e a confiança necessária para seguir em frente.
O que aprendi sobre liderança feminina no setor
Tive a sorte de ser respeitada desde cedo pela liderança da empresa em que atuo hoje, o que me deu confiança para desenvolver minha própria forma de liderar. Ainda assim, construir uma trajetória sólida como mulher em um mercado exigente e em constante transformação tem seus desafios, e nem todos são técnicos. Com o tempo, aprendi que influência não vem somente do conhecimento técnico ou da autoridade formal. Ela é construída por meio da credibilidade, da escuta ativa, da disposição para fazer perguntas difíceis e da capacidade de conectar pessoas com interesses e perspectivas diferentes. São exatamente essas competências que mais valorizo hoje, tanto no exercício da liderança quanto na atuação estratégica do Jurídico.
Poucos setores dependem tanto de confiança quanto o de seguros. Clientes contratam proteção para momentos de incerteza. Empresas tomam decisões relevantes esperando que seus riscos sejam compreendidos e gerenciados de forma adequada. Parceiros constroem relações que muitas vezes atravessam anos. Por trás de tudo isso, um único ativo sustenta o resto: confiança, construída no dia a dia por pessoas, processos, governança e cultura. E o Jurídico participa ativamente desse processo, não apenas ao revisar contratos, mas ao contribuir para decisões responsáveis.
Conclusão
O futuro do mercado de seguros vai exigir cada vez mais profissionais capazes de lidar com complexidade, antecipar riscos e construir confiança dentro e fora das próprias equipes. Acredito que o Jurídico tem um papel muito mais amplo do que tradicionalmente se imaginava. Sua contribuição não se limita à conformidade regulatória; ela também está presente nas decisões que ajudam a moldar estratégias, apoiar a inovação e sustentar o crescimento dos negócios.
Liderar não é estabelecer limites, é ajudar a construir caminhos, principalmente quando a jornada não é óbvia.
Ao olhar para minha trajetória, percebo que os momentos mais importantes não foram aqueles em que identifiquei riscos, mas aqueles em que ajudei pessoas e organizações a avançar com segurança, clareza e propósito.
Porque, no fim, governança não é sobre controle. É sobre criar as condições para que a confiança aconteça.
