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Violência contra a mulher sob a ótica da gestão de riscos

Por: Juliana Coelho

No mercado segurador, aprendemos que ignorar um risco não faz com que ele deixe de existir. Pelo contrário. Riscos negligenciados tendem a produzir consequências muito mais severas quando finalmente se materializam.

Esse princípio, tão presente no nosso dia a dia profissional, também pode ampliar a forma como compreendemos a violência contra a mulher.

Quem me conhece mais de perto sabe do meu envolvimento com temas relacionados ao fortalecimento e ao desenvolvimento das mulheres. Por meio de experiências pessoais e profissionais, conheci histórias que me fizeram refletir profundamente sobre esse tema.

Ao longo da minha carreira como atuária, dediquei-me a identificar riscos, quantificar seus impactos, avaliar vulnerabilidades e contribuir para decisões que tornem pessoas e organizações mais resilientes. Foi justamente essa experiência que me levou a olhar para esse tema por uma perspectiva diferente da que normalmente encontramos nos debates sociais, políticos, jurídicos ou psicológicos.

Minha proposta é contribuir para esse debate por meio de uma lente de análise ainda pouco explorada: a gestão de riscos.

Na gestão de riscos, buscamos compreender cenários, identificar sinais de alerta e agir antes que um evento produza consequências graves. Essa mesma lógica também nos permite compreender a violência contra a mulher como um risco social de alta severidade.

Um dos maiores desafios no enfrentamento da violência contra a mulher não está apenas na violência em si, mas na dificuldade coletiva de reconhecer que determinados comportamentos representam um risco que exige atenção e ação. Essa ausência de percepção do risco é, por si só, um fator que amplia a exposição e dificulta a intervenção precoce.

O problema nem sempre é a ausência de sinais. É a incapacidade de percebê-los como indicadores de que algo precisa ser reconhecido, acolhido e tratado.

Mudanças de comportamento. Isolamento. Medo constante. Controle excessivo. Dependência emocional ou financeira. Os sinais raramente são invisíveis. 

Sabemos também que os impactos de um evento dificilmente ficam restritos ao seu ponto de origem. A violência contra a mulher segue exatamente a mesma lógica. Seus efeitos geram externalidades que ultrapassam a esfera individual e alcançam filhos, famílias, empresas, comunidades e toda a sociedade. Produzem impactos humanos, sociais, econômicos e organizacionais que frequentemente permanecem invisíveis até que suas consequências se tornem críticas e duradouras.

Como profissionais do mercado segurador, convivemos diariamente com riscos financeiros, operacionais, regulatórios, climáticos e tantos outros. Desenvolvemos modelos, indicadores e mecanismos de proteção para mitigar esses riscos e fortalecer nossa capacidade de resposta.

Mas será que desenvolvemos essa mesma sensibilidade para reconhecer riscos que afetam as pessoas que convivem conosco?

Essa não é uma reflexão apenas para as organizações. É uma reflexão para todos nós.

Proteção é a essência da nossa indústria. E proteger pessoas também significa aprimorar nossa capacidade de reconhecer riscos.

É exatamente nesse ponto que organizações, lideranças e redes de apoio podem exercer um papel transformador.

Sabemos que não podemos controlar todos os eventos, mas podemos criar condições para reduzir seus impactos e fortalecer redes de apoio.

Essa é uma das maiores contribuições de iniciativas como a Sou Segura, dos programas de mentoria feminina, dos grupos de networking e de tantas outras redes de apoio.

Elas ampliam nossa percepção do risco. Favorecem o acolhimento. E reduzem o isolamento de quem mais precisa de apoio. Além de representar a primeira oportunidade para que uma mulher reconheça que precisa de ajuda.

Este não é um artigo para apresentar soluções, estatísticas ou indicadores. É um convite à reflexão. Compartilho essa nova perspectiva não para substituir outras abordagens, mas para somar a elas uma lógica que nos ensina a perceber os sinais e agir antes que seja tarde demais.

Porque riscos ignorados continuam existindo. Já riscos reconhecidos nos permitem agir.

E, às vezes, tudo o que uma mulher precisa é que alguém a ajude a perceber que aqueles sinais nunca foram “normais”.

Como costumo dizer, todo risco começa a ser enfrentado quando deixa de ser ignorado.

Todo risco conta uma história. 

Compreendê-la é o primeiro passo para transformá-la.

Juliana Coelho
Gerente Atuarial na Essor Seguros

Gerente Atuarial na Essor Seguros e Diretora Financeira do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA). Com mais de 20 anos de experiência no mercado de seguros, atua nas áreas de provisões técnicas, gestão de riscos, capital e solvência. É graduada em Ciências Atuariais pela PUC-SP, com especialização em Mercado Financeiro e de Capitais (ANBIMA), MBA Executivo em Gestão de Seguros (ENS) e certificação em Liderança Executiva pelo IBMEC. É coautora do livro Mulheres na Atuária II e participa ativamente de iniciativas voltadas ao desenvolvimento da profissão atuarial e da liderança feminina.

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