Brasil pode liderar a adaptação climática global
A transição climática exige decisões que não podem mais ser adiadas. Na COP30, em Belém, Amy Barnes, diretora global de Estratégia de Clima e Sustentabilidade da Marsh, reforçou que grande parte da infraestrutura e dos empreendimentos atuais continua sendo construída com base em padrões ultrapassados, sem considerar o clima de 20, 30 ou 40 anos à frente. Para ela, seguir replicando modelos antigos em um mundo de eventos extremos é insistir em um futuro de perdas evitáveis.
Ainda estamos construindo ativos em áreas vulneráveis, como planícies de inundação, e ergue-se novas estruturas baseadas em normas que refletem expectativas passadas de danos. A executiva destaca que padrões construtivos precisam ser revistos considerando enchentes, ressacas, ventos extremos como o tornado recente em Rio Bonito do Iguaçu (PR), ondas de calor e escassez hídrica. Países pouco acostumados ao calor, como o Reino Unido, já enfrentam limitações sérias em edificações que não foram concebidas para altas temperaturas.
Barnes enfatiza que, em muitos projetos de transição, a ausência de uma cobertura adequada impede que financiadores avancem. Ela cita dois casos recentes assessorados pela Marsh: uma planta de aço verde e um projeto de captura de carbono, ambos inviáveis sem uma solução de seguro de crédito e garantia que viabilizou o acesso a capital. Segundo a executiva, inúmeros empreendimentos nunca chegam à decisão final de investimento porque seus riscos não foram suficientemente gerenciados para atrair investidores. É justamente nesse ponto que o seguro pode destravar capital.
A diretora defende que seguradoras e investidores institucionais precisam colaborar mais cedo no processo. O setor, afirma ela, é altamente inovador, mas muitas vezes os desafios chegam tarde demais, sem prazo suficiente para desenvolver soluções sob medida. Garantias de desempenho para tecnologias emergentes são um exemplo: há seguradoras preparadas para subscrever esses riscos, mas o processo exige meses de análise. Para Barnes, o futuro deve incluir produtos híbridos que combinem capacidade de subscrição com a força dos portfólios de investimento das seguradoras, criando instrumentos mais eficientes para financiar a transição verde.
Nem tudo, porém, é risco segurável. Barnes lembra que riscos estratégicos — como a adequação de uma tecnologia ao mercado — não são objeto de seguro. Nesses casos, entram em cena contratos, parcerias ou até capital filantrópico. Já riscos operacionais, geopolíticos, climáticos e de responsabilidade podem ser protegidos, e a Marsh estruturou recentemente um relatório detalhando que tipos de riscos são cobertos em cada fase da transição.
Com relação ao Brasil, a executiva é enfática: o país reúne condições únicas para se tornar um laboratório global de mitigação e adaptação. O ecossistema de startups, a força em Agritech e Fintech e a matriz energética majoritariamente renovável criam um ambiente fértil para projetos de baixo carbono. A agricultura regenerativa já apresenta exemplos de aumento de resiliência e redução de emissões. No entanto, Barnes reforça que as cidades brasileiras precisam avançar em infraestrutura de drenagem e edificações resilientes para evitar desastres como os registrados no Rio Grande do Sul no ano passado.
O governo prevê a necessidade de 37 GW adicionais de energia entre 2026 e 2030. O Brasil, 10º maior produtor mundial de aço e também relevante na produção de alumínio e cimento, tem potencial para liderar novas técnicas de manufatura de baixo carbono, aproveitando a matriz hidrelétrica que representa cerca de 50% da geração nacional. Para Barnes, esse contexto cria oportunidades para parcerias público-privadas que podem se tornar referência global.
“A adaptação climática exige escolhas estruturantes. Construir o futuro com a lógica do passado já não é uma opção — e o Brasil tem a chance de ser protagonista nesse novo paradigma, desde que incorpore resiliência, inovação e seguro no centro das decisões”, finalizou.
Fonte: Sonho Seguro – Denise Bueno
