Meio Ambiente

Seguros, ciência e municípios moldam resiliência climática

Conhecer o risco é o primeiro passo para evitá-lo. E o Brasil não pode mais caminhar às cegas diante dos eventos climáticos extremos. Essa foi a mensagem central de Dyogo Oliveira, presidente da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), na abertura do “Fórum Cidades Resilientes na COP30”, realizado na Casa do Seguro, em Belém (PA), durante a Conferência do Clima.

O evento, promovido pela CNseg em parceria com a Confederação Nacional de Municípios (CNM), reuniu lideranças para discutir como a cooperação entre governos, mercado segurador e sociedade pode transformar os desafios climáticos em oportunidades, promovendo cidades mais preparadas e adaptadas para a transição climática.

Na abertura, Dyogo Oliveira anunciou o lançamento da Ferramenta de Avaliação de Riscos Climáticos, uma solução digital desenvolvida pela CNseg para calcular o risco de inundação de qualquer endereço do país a partir do CEP. A ferramenta, que futuramente estará aberta ao público, cruza dados de diversas bases oficiais e gera um score de risco. “É uma contribuição concreta para que as pessoas entendam a exposição em que vivem e possam agir preventivamente”, destacou. Ele também reforçou a proposta da CNseg de criação de um seguro social de catástrofe, que pode garantir indenizações emergenciais para famílias afetadas por enchentes e deslizamentos.

Em sua fala, Dyogo reforçou que, entre 2022 e 2024, o Brasil sofreu mais de R$ 200 bilhões em perdas econômicas decorrentes de eventos climáticos extremos. O número de ocorrências quase dobrou em uma década, passando de 2.500 para 4.500 por ano. Para o representante da CNseg, enfrentar riscos dessa magnitude exigirá cooperação contínua entre governo, setor segurador e sociedade. “Não se trata de infraestrutura. Trata-se de proteger vidas”, afirmou.

O alerta dos municípios

Representando a CNM, Nélio Aguiar trouxe a perspectiva urgente de quem vive o impacto das mudanças climáticas no cotidiano das cidades. Ele destacou que, nos últimos 12 anos, os municípios acumularam R$ 700 bilhões em prejuízos com desastres naturais.

Apenas nos primeiros quatro meses de 2025, já são R$ 28,5 bilhões, com 115 mortes, milhares de desabrigados e desalojados em todo o país. Aguiar defendeu mais estrutura, tecnologia e autonomia para os municípios, além da criação de instâncias nacionais de coordenação, como a PEC 31/2024, que institui o Conselho Nacional de Gestão Climática e Prevenção de Desastres. Ao elogiar o lançamento da ferramenta da CNseg, Aguiar reforçou: “Gestores precisam de indicadores na palma da mão para tomar decisões certas, especialmente em emergências”.​

A visão do Ministério das Cidades

O ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, destacou a urgência de inserir gestores municipais, prefeitos e lideranças comunitárias no centro das decisões climáticas. Para ele, nenhum plano será efetivo se aqueles que executam as políticas na ponta não estiverem envolvidos desde o início. “Sem os líderes locais, não há implementação possível”, afirmou, lembrando que 87% da população brasileira vive em áreas urbanas e que a crise climática exige tanto a redução do desmatamento quanto a diminuição das emissões que partem das cidades.

O ministro reforçou as ações do Governo Federal em prevenção, como obras de macrodrenagem e contenção de encostas, e defendeu que a COP30 seja simultaneamente a “COP das florestas” e a “COP das cidades”. Ele destacou experiências internacionais e o papel crescente de governadores e prefeitos no combate à crise climática, afirmando que o Brasil também precisa fortalecer esse protagonismo. “O planeta pede urgência”, concluiu.​

Do planejamento à prática: resiliência, seguros e soluções inteligentes

No painel “Para inspirar: do planejamento à prática – resiliência, seguros e soluções inteligentes”, o moderador Paulo Nobre, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), abriu a discussão lembrando que a ciência já aponta um futuro de extremos mais intensos e frequentes. Ele sintetizou o desafio em uma frase que guiou o debate. “A adaptação é local, cidade a cidade, bacia hidrográfica a bacia hidrográfica.”​

A prefeita Elisângela Paiva Celestino, de Concórdia do Pará (PA), destacou a dificuldade de municípios de pequeno porte em acessar financiamento, estruturar equipes técnicas e realizar ações preventivas. Ela apresentou iniciativas de seu município, como a criação de uma unidade de conservação, o projeto do primeiro bairro sustentável da Amazônia e programas de reaproveitamento de resíduos, exemplos que conectam preservação ambiental, gestão urbana e resiliência climática.​

O prefeito Luiz Carlos de Aguiar Leite, de Anapu (PA), enfatizou o uso do mapeamento georreferenciado para identificar áreas vulneráveis e planejar a realocação de famílias expostas a enchentes. Também apresentou o modelo local de desenvolvimento baseado em pequenas indústrias do cacau, energia solar e fundos comunitários, combinando geração de renda, conservação da floresta e adaptação às mudanças climáticas.​

Na sequência, a diretora Inamara Santos Mélo, do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência do Ministério do Meio Ambiente (MMA), detalhou a estratégia federal por meio do programa Adapta Cidades, que já envolve 581 municípios e tem como meta alcançar 2 mil até 2035. Ela defendeu a inclusão do seguro como instrumento essencial na agenda de adaptação. “Precisamos incorporar o seguro às políticas públicas para ampliar a capacidade adaptativa das cidades”, disse.

Encerrando a perspectiva internacional, Swenja Surminski, diretora de Clima e Sustentabilidade da Marsh McLennan, reforçou que resiliência deixou de ser escolha e passou a ser necessidade. Ela destacou que 22% da população urbana da América Latina já vive sob risco de enchentes, uma porcentagem que pode chegar a 30% com o aquecimento global. Swenja também mostrou como dados, modelagem de risco e seguros paramétricos estão permitindo soluções mais eficientes e acessíveis. Para ela, “não se trata mais de risco, mas de realidade”, e países que não tratarem a resiliência como investimento arcarão com custos muito maiores no futuro.​

Mediado por Pedro Werneck, gerente de Sustentabilidade da CNseg, o painel “Planejar, construir e cuidar: estratégias municipais para infraestruturas resilientes” reuniu especialistas para discutir como transformar planejamento urbano, governança e engenharia em respostas concretas diante do avanço dos eventos climáticos extremos.

Pedro abriu o debate destacando a importância dos dados preditivos para políticas públicas mais eficazes e lembrou que a nova ferramenta de avaliação de riscos climáticos da CNseg amplia o acesso à informação. “Dados preditivos deixaram de ser opção. São condição para qualquer estratégia séria de adaptação.” ​

A gerente de Sustentabilidade e Resiliência da CNM, Cláudia Lins, enfatizou que o maior desafio dos municípios é estruturar diagnósticos consistentes em meio à falta de dados locais, equipes técnicas reduzidas e ausência de financiamento estável. Ela lembrou que muitos gestores ainda dependem de séries históricas que já não refletem o clima atual. “Não existe planejamento sem diagnóstico e não existe diagnóstico sem dados que dialoguem com a realidade de cada território”, afirmou, reforçando a importância do federalismo climático e da inclusão dos municípios na formulação das políticas nacionais.

Já Karla França, analista de Planejamento Territorial e Habitação da CNM, destacou que apenas 50% dos municípios brasileiros possuem plano diretor e, mesmo entre esse grupo, poucos incorporam diretrizes climáticas. Ela citou a fragilidade dos códigos de obras, a ausência de governança urbana qualificada e a dificuldade das cidades pequenas e médias em adaptar normas e instrumentos para a lente climática. Karla trouxe exemplos de municípios que avançaram ao integrar soluções baseadas na natureza, revisar instrumentos urbanísticos e atuar em consórcios. “Sem planejamento, não há resiliência; e sem financiamento, planejamento não sai do papel”, sintetizou.​

Encerrando o painel, Haiany Cristina Ribeiro de Miranda, especialista em Engenharia Ambiental da Nippon Koei (Tokio), apresentou tecnologias promissoras para o contexto brasileiro, como modelagens hidrológicas de alta resolução, integração de GIS e BIM, sensores IoT e sistemas de alerta precoce.

Ela destacou a importância de adaptar soluções internacionais às realidades locais e lembrou que o Brasil ainda investe muito mais em reconstrução do que em prevenção. “O país dedica 70% dos recursos ao pós-desastre e apenas 2% à prevenção. Precisamos inverter essa equação.”​

O último painel do dia, “A capacidade municipal de enfrentamento de desastres e o desafio dos extremos climáticos”, trouxe uma discussão pragmática sobre a pergunta que norteou toda a tarde: como preparar municípios para enfrentar desastres que já não são exceção, mas rotina?

Sob a mediação de Luciana Dall’Agnol, superintendente de Sustentabilidade da CNseg, o painel debateu estratégias reais de reforço institucional. Luciana destacou a mudança de paradigma do setor de seguros, afirmando que “o setor de seguros tem trazido para si a responsabilidade de se colocar em um posicionamento estratégico nessa agenda de clima”.​

A analista de Defesa Civil da CNM, Ingrid Ferreira Lima, trouxe à mesa números que revelam o tamanho do desafio. Estudo recente da Confederação mostrou que 12% dos municípios não executam nenhuma ação exclusiva de Defesa Civil, enquanto 70% contam com orçamento de até R$ 50 mil para prevenção e resposta, valor insuficiente para cumprir as 18 obrigações previstas na Política Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Para agravar o quadro, 43% das Defesas Civis municipais têm apenas três servidores para gerir todas as etapas, da prevenção à reconstrução. “Um Brasil só será resiliente quando os municípios forem resilientes”, afirmou Ingrid, reforçando a urgência de mais recursos, capacitação e protagonismo local.​

A urbanista Leticia Sabino, diretora-presidente do Instituto Caminhabilidade, focou na relação entre planejamento urbano, desigualdade e vulnerabilidade climática. Ela criticou o modelo urbano centrado no automóvel e defendeu a caminhabilidade como eixo de mitigação e adaptação. “O planejamento que fizemos até agora não funciona. Adaptar as cidades significa colocar as pessoas no centro e reduzir distâncias”, disse, apresentando exemplos de Paris, Seul e iniciativas brasileiras em Fortaleza e Sobral. Para Leticia, soluções descentralizadas, de escala de bairro, são fundamentais para proteger mulheres, crianças, idosos e moradores das periferias, grupos que mais caminham e os que mais sofrem com calor extremo, enchentes e infraestrutura precária.​

Na perspectiva institucional e financeira, Larissa Menescal, especialista em Políticas Públicas da InREDE, e Jardel Luís Carpes, diretor de Riscos da Caixa Econômica Federal, convergiram na mesma conclusão: sem integração e governança, nenhuma estratégia se sustenta.

Larissa destacou os gargalos de fragmentação e descontinuidade, defendendo institutos de planejamento capazes de articular diferentes áreas e transformar dados em ação concreta. “Nunca tivemos tantos dados — o desafio agora é fazer com que eles orientem decisões no território.” Jardel, por sua vez, apresentou instrumentos como o FEP e o novo Fundo Garantidor de Crédito para PPPs (FGC 3P), lançado na COP30, que ampliam a capacidade dos municípios de acessar financiamentos de resiliência. Para ele, o futuro depende de coordenação econômica: “Precisamos equilibrar os incentivos para que a adaptação seja viável para todos.”

Fonte: Sonho Seguro – Denise Bueno

Falar agora
Olá 👋
Como podemos ajudá-la(o)?