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Os desafios para uma melhor idade

Em seu livro “A Era da Turbulência”, Alan Greenspan aponta duas variáveis como grandes ameaças à manutenção do crescimento da economia americana: um ataque nuclear e o envelhecimento populacional, o fato de os “baby boomers” estarem chegando aos 60 anos e alterando dramaticamente a dinâmica populacional dos Estados Unidos. No capítulo “O Futuro Délfico”, o ex-presidente do Federal Reserve Board (o banco central americano) escolhe o ano de 2030 – coincidentemente, o mesmo apontado por John Maynard Keynes para um texto seu de exercício da futurologia e também o mesmo dos últimos relatórios do Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC) sobre o aquecimento global – para arriscar suas perspectivas da economia mundial. Sua dúvida persiste quanto à capacidade do país para controlar a inflação numa conjuntura repleta de novas demandas sociais.
“A relativa tranqüilidade fiscal de hoje mascara um tsunami iminente, que nos atingirá quando parcela significativa da população altamente produtiva do país se aposentar”, afirma Greenspan, ao iniciar generosa explanação sobre os efeitos deste fenômeno do déficit, juros, inflação e produtividade da economia de seu país.
No Brasil, apesar das indicações recentes dos dados demográficos, muitos ainda trabalham na inércia de que somos um país jovem e poucos percebem as implicações de um processo de envelhecimento já em pleno curso. Talvez, por esse desprezo aos fatos, boa parte das análises siga na linha de Greenspan, ou seja, encare o fenômeno como “crise”, a crise do envelhecimento.
Conhecer o processo, no entanto, passa a ser condição fundamental para governos e empresas. As corporações ainda nem desconfiam de como o envelhecimento populacional baterá sobre seus balanços. É um risco, por enquanto, a descoberto, sem previsão. Mas é perfeitamente possível fazer uma espécie de “hedge” – basta entendê-lo e tomar algumas iniciativas de médio prazo. Se as empresas quiserem sobreviver de geração para geração, devem desde já conhecer esta dinâmica, porque tudo dentro delas vai ter que mudar, até o design do banheiro. Se não o fizerem, correrão o risco de pagar muito caro pela mão-de-obra e pelo conhecimento necessários à produção.
É por isso que a nova bibliografia sobre o tema passa a ser importante num campo multidisciplinar. “Idosos no Brasil – Vivências, Desafios e Expectativas na Terceira Idade”, organizado pela psicóloga do envelhecimento Anita Liberalesso Néri, da Unicamp, é uma grande contribuição para o conhecimento desse fenômeno tão importante para a economia quanto o aquecimento global, o fluxo de capitais ou o avanço tecnológico.
O livro parte de pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo e pelo Sesc, no ano passado, com a intenção de perfilar o idoso brasileiro, sobretudo em áreas sensíveis ao preconceito. Associando-se aos dados da pesquisa 14 textos assinados por especialistas no assunto, formou-se bibliografia importante para esclarecer a situação e apresentar os desafios.
Como destaca a economista Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea, em seu texto no livro, as condições de assistência ao idoso brasileiro de hoje estão razoavelmente garantidas porque este desfruta de um desdobramento benigno de outro mercado de trabalho, no qual havia mais formalidade e direitos assegurados. O futuro – marcado pela baixa fecundidade, principal determinante do envelhecimento populacional – é incerto. A família, diz Camarano, é outra. Há novo padrão de nupcialidade, separações, recasamentos, solidão e esse novo arranjo aflige mais a mulher – por viver mais. É aí que as empresas sofrem as conseqüências, por causa da inserção feminina no mercado de trabalho.
Atualmente, a família tem grande papel na atenção ao idoso. Mas o Estado, como afirma Greenspan em seu livro, pode assinar seu atestado de incompetência para atender às necessidades desta nova família e a empresa, certamente, será chamada a participar desta assistência. No Japão, afirma Ana Amélia, o governo foi obrigado a instituir a licença de quatro meses – remunerada pela empresa – para os filhos cuidarem dos pais idosos e doentes. Não será de surpreender, portanto, se daqui a poucos anos, dentro da empresa, em vez de uma creche surgir uma instituição de longa permanência para idosos, totalmente custeada pelos acionistas.
No capítulo “Velhice e Políticas Públicas”, a assistente social Maria Eliane Catunda de Siqueira, da PUC-MG, chama a atenção para o desconhecimento – por parte dos próprios idosos – de seus direitos e como isso beneficia a inação do poder público. Entre os idosos que responderam contar com renda própria, 84% destacam aposentadorias e pensões, mas somente 1% declara receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Isso pode ser explicado porque apenas 63% dos entrevistados conhecem esse benefício garantido na Constituição, regulamentado pela Lei Orgânica da Assistência Social e referendado pelo Estatuto do Idoso.
A autora aponta como uma das soluções para trazer eficiência às política públicas em benefício da terceira idade o fortalecimento do município. Segundo Maria Eliane, cabe ao Estado brasileiro, pautado no princípio constitucional da descentralização político-administrativa, eleger a cidade como agente privilegiado que é da execução e destinação de recursos para a inclusão social do idoso. Nesse aspecto, as questões de urbanização entram no debate com um papel protagonista. Mais uma prova de que o envelhecimento populacional vai alterar todos os espaços da vida.

Fonte: Valor

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