O corretor como consultor na era “figital”
Por Paula Bernardoni, Superintendente de Youse Negócios
Por muitos anos, a digitalização foi vista no mercado de seguros como um possível desafio para o papel do corretor. Com o avanço das insurtechs e das tecnologias emergentes, cresceu a percepção de que plataformas tecnológicas poderiam reduzir a importância do relacionamento humano. No entanto, a experiência tem mostrado um movimento diferente e mais construtivo: a tecnologia, na prática, não substitui o corretor, ela transforma e amplia seu papel.
Estamos vivendo a consolidação do modelo figital, em que experiências físicas e digitais se complementam ao longo de toda a jornada do seguro. Nesse cenário, o corretor passa a atuar como um consultor estratégico, apoiado por dados, plataformas inteligentes e processos mais eficientes.
O comportamento do consumidor ajuda a explicar essa transformação. Hoje, o cliente quer conveniência, rapidez e clareza, mas sem abrir mão da confiança. Segundo estudos recentes da Forbes, 53% dos consumidores tendem a contratar a primeira empresa que responde, enquanto 87% afirmam recomendar marcas após uma experiência positiva e 70% dizem estar dispostos a pagar mais quando o processo é mais conveniente e fluido. No caso do seguro, pela sua complexidade, isso exige algo além do “clique”. Exige orientação.
É justamente aí que o corretor ganha ainda mais relevância. Com o apoio de tecnologias emergentes, como multicálculos, plataformas de gestão, APIs, inteligência artificial e machine learning, ele passa a ter mais tempo e mais informação para fazer o que realmente importa: entender o perfil do cliente, traduzir coberturas, personalizar soluções e acompanhar o pós-venda.
Na prática, o figital se materializa em jornadas híbridas. A cotação pode começar no digital e ser finalizada com apoio humano. A contratação pode acontecer online, mas com suporte consultivo. Endossos, acionamento de coberturas e acompanhamento de sinistros passam a ser feitos no canal de preferência do cliente, aplicativo, portal ou contato direto com o corretor. A tecnologia cuida do operacional; o corretor cuida da relação.
Esse movimento também amplia oportunidades de negócio. Corretores que adotam plataformas digitais conseguem escalar sua operação, diversificar canais, atender mais clientes e construir relacionamentos mais duradouros, sem perder a essência do atendimento personalizado. A digitalização deixa de ser um custo ou um desafio técnico e passa a ser uma alavanca de crescimento e diferenciação profissional.
Mais do que aprender novas ferramentas, a transformação exige mudança de mentalidade. O corretor do futuro, que já é o corretor do presente, é aquele que entende que tecnologia não compete com o humano, mas potencializa sua atuação. Quanto mais digitais se tornam os processos, mais valioso se torna o olhar consultivo, a escuta ativa e a capacidade de gerar confiança.
Ao unir tecnologia e relacionamento, o modelo figital cria um mercado mais eficiente, mais acessível e mais humano. E reforça um ponto essencial: o corretor não está sendo substituído. Ele está sendo reposicionado como protagonista de uma nova fase do setor de seguros.
