Não coma pão de queijo sozinha! O networking em eventos, na prática
Priscila Costa Russo
Nos primeiros anos da minha carreira, eu era aquela pessoa que comia pão de queijo sozinha num cantinho do Welcome Coffee em eventos profissionais e dinâmicas de grupo. Constrangida por não conhecer ninguém, ficava contando os minutos para que aquele “suplício”- o tempo livre em grupo – acabasse o mais rápido possível. Quantas vezes rodei o palito no copinho de café, interminavelmente, enquanto o tempo parecia não passar!
Você já se viu nessa situação? Ou já observou alguém assim? Saiba que isso é mais comum do que parece em eventos profissionais.
Eu não conhecia o poder daqueles minutos livres e da interação com pares e até concorrentes.
Tudo mudou quando conversei com uma colega do Jurídico de Saias, um grupo de afinidade de mulheres advogadas corporativas do qual participo há muitos anos. Por meio de uma troca de postagens em um blog, ela me contou como conseguiu transformar o constrangimento em estratégia. Trocamos telefones, nos encontramos em um almoço, e minha vida mudou. Sou eternamente grata a ela pelo que compartilhou comigo e que agora passo a compartilhar com vocês.
O que é networking, afinal?
Essa colega sobretudo abriu meus olhos para o real significado de networking. Sabemos que aquele conceito antigo e equivocado de “networking” – que significava ter alguém para ligar quando você perde o emprego ou pedir ajuda em momentos de necessidade – evoluiu.
Segundo um estudo da Harvard Business Research, networking é “o processo proativo de criar, nutrir e utilizar relacionamentos autênticos e mutuamente benéficos para compartilhar recursos, obter apoio e promover o desenvolvimento profissional ou pessoal. Vai além das simples táticas transacionais de ‘quem você conhece’, concentrando-se na construção de conexões diversas e de alta qualidade em vários níveis profissionais.”
Eu resumiria esse conceito, portanto, em três pilares: 1. Criar relacionamento 2. Nutrir relacionamento 3. Compartilhar recursos mutuamente benéficos
Voltemos ao pão de queijo no Welcome Coffee ou Coffee Break de evento.
(1) Criar relacionamento
Você pode mudar o rumo de suas participações em eventos com algo tão simples quanto se aproximar da pessoa mais próxima de você, ali, pegando um café e dizer algo como: “Bom dia, tudo bem? Deixe que eu me apresente. Me chamo Priscila. E você?”
Pratique a escuta ativa. Seja curiosa. Deixe o outro confortável. Inclua quem está por perto. Crie pontes: “Fulano, eu estava falando aqui com a Sicrana, que é especialista em (…). Você já trabalhou com isso?”
Em um minuto, você já não está isolada. Pelo contrário, você está integrada e integrando!
E, naturalmente, você não precisa ficar presa às primeiras pessoas com quem conversou. Circule. Se apresente. Busque informações e conhecimento.
Depois de fazer isso duas ou três vezes, você ficará surpresa com a naturalidade e facilidade com que passará a transitar por ambientes que antes lhe pareciam inóspitos.
(2) Nutrir relacionamento
Mas como transformar uma conversa de coffee break em relacionamento? Esse é o item mais relevante na prática do networking e não poderá ser esgotado em um único artigo.
Meu objetivo aqui não é discorrer de forma acadêmica sobre o tema mas, como propus no título do artigo, aplicar isso de foram prática no relacionamento em eventos. Assim sendo, eu diria: troque contatos. Tome nota, ainda que mental, de uma curiosidade ou preocupação que a pessoa compartilhou.
Leu algo relevante sobre o tema nos dias seguintes? Envie isso àquela pessoa: “Li isso esta semana e achei que poderia te interessar.”
Aos poucos, os laços se fortalecem.
Minha maior dificuldade sempre foi manter contato com pessoas em posição hierárquica muito superior à minha. Muitas vezes me senti inadequada. Mas me surpreendi ao receber respostas de e-mails enviados a profissionais muito acima de mim — e recomendo que você faça o mesmo. Pode ser ignorada, sim. Mas também pode se surpreender positivamente.
(3) Compartilhar recursos mutuamente benéficos
Aqui está a grande riqueza do networking: ele é uma via de mão dupla. E só funciona se praticado de forma genuína e consistente ao longo do tempo.
Nos últimos dez anos, conheci muita gente no mercado de seguros. A Sou Segura foi fundamental nisso, abrindo portas e contatos. Quantas vezes compartilhei conhecimento, artigos, vagas, ajudei colegas em rodadas de investimento ou com dúvidas técnicas.
Minha cover letter, criada com ajuda de uma amiga estrangeira, já foi compartilhada inúmeras vezes e aprimorada. Vi colegas alcançarem posições de C-Level pela forma como se apresentaram com essa carta (além, claro, da competência comprovada depois). Convidei colegas em transição de carreira para eventos relevantes – e isso lhes foi profundamente útil. Sempre fiz tudo isso de forma genuína e generosa.
E qual não foi minha surpresa, em uma fase mais desafiadora de minha carreira, ao receber convites para almoços, cafés, pessoas fazendo conexões e buscando minha recolocação. Até aquela minha cover letter, perdida ao longo dos anos, me foi enviada por uma colega com quem eu não falava há muito tempo.
Alguém me disse: “Ué, por que toda essa atenção está sendo uma surpresa, se você sempre fez exatamente isso por tanta gente?”
Minha experiência prática em eventos
Na semana seguinte àquele almoço com a colega do Jurídico de Saias, tive oportunidade de participar de um almoço de advogadas no Yatch Club de Nova York. Eu estava na cidade a trabalho e minha chefe à época me convidou a participar de um evento de um dia inteiro, para conexão e relacionamento com advogadas de escritórios e advogadas corporativas de Manhattan. O Welcome Coffee era parecido, mas a minha postura seria muito diferente. Dessa vez eu estava focada. Meu primeiro teste de fogo dentro dessa nova mentalidade foi na gringa e em outro idioma.
Ali havia advogadas de toda a América Latina e América do Norte, eu não era a única pessoa “de fora”. Mas ali me vi circulando, me apresentando e sendo apresentada sem constrangimentos. Por volta da hora do almoço eu já estava curtindo a experiência de criar relacionamento, falar do meu trabalho e dos desafios regulatórios no Brasil, e de aprender sobre outras jurisdições e experiências profissionais.
Saí de lá com contatos que se perpetuaram por alguns anos. Ali conheci advogadas de escritórios que me prestavam serviços em outros países no Cone Sul e que eu não conhecia. A proximidade me facilitou tratativas que estavam enroscadas a alguns tempos.
Em eventos de seguros e resseguros, fiz contatos que permitiram fechar negócios pouco tempo depois, apresentei e fui apresentada a pessoas que converteram relacionamento em patrocínio para a Sou Segura. E mais do que isso, conheci pessoas que me foram presentes do mercado de seguros e que carrego para a vida.
Reflexão Final
Aquilo que começa como algo aparentemente frívolo em um evento, como uma conversa durante o café, pode ajudar a criar e aprimorar em você habilidades e competências pessoais que lhe que abrirão portas ao longo de toda a sua carreira. Seja na empresa em que você trabalha, em concorrentes, em associações profissionais ou grupos de afinidade.
É um processo sem volta.
Assim sendo, nunca mais coma pão de queijo sozinha!
