Ajuda de R$ 100 bi
Encontro de lula e do primeiro-ministro do reino unido sela acordo para garantir a reativação do comércio mundial Da Redação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aceitou apoiar na cúpula do G-20, que representa as 20 maiores economias do mundo, a proposta de criar um fundo de US$ 100 bilhões para financiar o comércio internacional. A ideia é do primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, que se encontrou ontem com Lula na série de consultas preparatórias que o britânico vem fazendo com vistas à reunião do G-20, na semana que vem, em Londres. Lá, chefes de Estado e de governo vão tentar encontrar uma fórmula comum para combater a crise econômica global e regulamentar o sistema financeiro.
Centenas de empresas estão impedidas de fazer comércio por falta de crédito. A comunidade internacional não pode permitir isso. Estamos propondo a criação de um fundo de pelo menos U$ 100 bilhões para ajudar o mundo nesse campo do comércio internacional. Isso é absolutamente necessário para passarmos pela crise, disse Brown após a reunião com Lula. Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o Brasil vai contribuir para o fundo, sem que isso prejudique as contas públicas e as reservas internacionais.
Em entrevista conjunta, Lula e Brown concordaram sobre a necessidade de reforma nas regras do mercado para evitar uma outra crise global. Ministro da Fazenda britânico nos 10 anos de governo trabalhista de Tony Blair (1997-2007), Brown chegou a descartar boa parte do credo liberal adotado em seu país e no resto do mundo nos anos 1980 e 1990. O antigo Consenso de Washington morreu e não podemos voltar ao modelo de sistemas bancários do passado. Temos que mudar nossa lógica financeira para que as pessoas e as empresas se sintam seguras a usar os bancos. O novo consenso que estamos construindo tem que garantir isso, afirmou.
Para Lula, as medidas de saneamento financeiro adotadas pelos governos não estão recuperando o nível da oferta de empréstimos a empresas e consumidores. O primeiro problema é fazer voltar fluir o crédito. Essa é nossa primeira obrigação e até agora as medidas tomadas não ajudaram, disse. Sem crédito, a economia vai atrofiar. O presidente criticou a política do governo dos EUA de usar recursos públicos para limpar os balanços dos bancos. Tomara que dê certo. Mas não acho que devemos gastar o pouco dinheiro que temos comprando títulos podres, que deveriam ir para o arquivo.
Lula defendeu o papel do Estado na regulação do mercado e voltou a dizer que a crise foi criada pelos financistas ricos de Wall Street, mas acabou prejudicando injustamente as populações de baixa renda. Não podemos permitir que os pobres paguem por uma crise feita por ricos, sobretudo porque ela não foi gerada por nenhum negro, índio ou pobre. Essa crise foi gerada e fomentada por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis. Antes da crise, eles sabiam tudo. Agora, não sabem de nada, alfinetou.
Tentando evitar constrangimentos, Brown não quis apontar culpados. Ele disse que veio ao Brasil por causa da importância do país no cenário mundial, acrescentando que a retomada do crescimento vai depender da reação dos emergentes, responsáveis por 70% da expansão global. O presidente Barack Obama, deve ser a estrela do G-20. Desde o início da semana, ele vem pedindo aos líderes políticos que unam esforços para o combate à crise.
Essa crise foi gerada e fomentada por comportamentos irracionais de gente branca, de olhos azuis
Presidente Lula
EUA querem intervir O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, apresentou ontem ao Congresso o projeto de lei de reforma na regulamentação do sistema financeiro, que prevê o endurecimento das normas existentes e autoriza as agências reguladoras do governo a intervir e liquidar instituições financeiras não bancárias, como seguradoras e fundos de investimento de alto risco (hedge funds). Essa reforma deve ser concluída para evitar que se repitam os fracassos do passado, que levaram à atual crise, disse Geithner ao entregar a proposta ao Comitê de Serviços Financeiros da Câmara de Deputados.
O plano prevê a criação de uma entidade única, que supervisionará as maiores empresas financeiras não bancárias cuja falência pode causar uma quebradeira em série nos EUA e em todo o mundo. O Tesouro também considera necessário aumentar a previsão de capital próprio das instituições e as exigências de controle de risco nos empréstimos e demais operações. Os hedge funds deverão se registrar junto às autoridades que supervisionam as bolsas de valores e comunicar seus balanços regularmente, sob condição de que eles se mantenham em sigilo.
Geithner propõe ainda que o governo regule o mercado de produtos derivativos de crédito, como os que causaram a quebra da seguradora AIG. A companhia recebeu US$ 180 bilhões de ajuda do governo e, mesmo assim, registrou um prejuízo de US$ 99,3 bilhões no ano passado, o maior da história corporativa dos EUA. A situação da AIG, que já cedeu 80% do controle ao Tesouro, foi a inspiração para a correção de rumos tentada agora. Uma das intenções do projeto é proteger os consumidores e seus investimentos, evitando uma nova bolha.
Ontem, o Departamento de Comércio anunciou a revisão do resultado da economia dos EUA. Antes, a queda no último trimestre de 2008 havia sido calculada em 6,2%. Agora, passou para 6,3%. Essa é a mais forte contração da economia americana desde o último trimestre de 1982. A queda dos lucros das empresas foi a maior em 55 anos. O desempenho foi ruim, mas melhor que a expectativa dos analistas de mercado, que era em torno de 6,7%. No ano passado, o crescimento do país foi de 1,1%, o menor desde 2001. (Da Redação)
EUA e Europa divididos no G-20
Edna Simão Da equipe do Correio
A divisão entre americanos e europeus continuará sendo o centro do debate na reunião dos ministros da economia e finanças do G-20 grupo dos países mais ricos e os principais emergentes durante a reunião que será realizada em 2 de abril, em Londres. Os europeus defendem a regulação do sistema financeiro e ações humanitárias para ajudar as nações mais pobres. Já os americanos, se preocupam com a sustentação da demanda e, por isso, querem aumento agressivo dos gastos públicos.
Ontem, o ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, destacou que as propostas desses blocos são importantes, mas insuficientes. Por isso, o Brasil deve ressaltar em seu discurso que é preciso preocupação com o impacto da crise na economia real. A posição brasileira está sendo construída. Não está cristalizada, afirmou o ministro.
Fonte: Correio Braziliense
