Incêndio no Teatro Cultura: Fotos revelam falhas e fios expostos
Em sua tese sobre o Cultura Artística, apresentada em julho deste ano, ele encontrou e documentou falhas como fios expostos no palco, ferrugem, infiltrações, vazamentos, falta de saídas de emergência, concreto desgastado e muita madeira deteriorada.
A tese de Anderson Leite Schmidt, de 28 anos, realizada com supervisão do professor de Tecnologia da Construção e Projeto João Roberto Leme Simões, foi aprovada com nota 9,2. De maio a julho deste ano, o arquiteto visitou o Teatro Cultura Artística para escrever sobre “Patologias, Origens e Reflexos no Desempenho Técnico-Construtivo do Edifício”. Ao fazer suas análises, utilizou como base os métodos dos bombeiros e da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), principalmente a norma NBR 6241, que trata sobre materiais isolantes e coberturas protetoras. E achou uma série de inadequações do projeto, problemas de execução de obras, materiais empregados e manutenção – que podem ou não estar relacionadas de alguma forma com o incêndio no domingo, mas que fazem um retrato do estado de conservação de um dos espaços culturais mais importantes da cidade.
As falhas foram documentadas em cerca de 200 fotos. Entre as possivelmente mais graves, o arquiteto encontrou a marquise da fachada sem impermeabilização, estrutura da escada de incêndio corroída pela ferrugem, corrimãos com altura e formato incorretos, laje com infiltração e pisos com madeira deteriorada. A rede elétrica do Cultura Artística não é embutida nas paredes, como o recomendado em qualquer construção – muitos fios permaneciam expostos no palco. A caixa de disjuntores tinha ferrugem nas soldas. Já tubulações de água ficam em paralelo aos conduítes da rede elétrica, o que poderia causar um acidente em caso de vazamento.
“Isso é algo sério, perigoso, possivelmente causado porque o projeto é antigo e deve ter havido várias alterações durante as décadas”, diz a professora Rosario Ono, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, especialista em segurança contra incêndios. “Isso não significa que tenha causado um incêndio, longe disso, pois um incêndio é uma soma de erros. Mas retrata uma falha.”
ERROS NA SEGURANÇA
Se o incêndio de domingo tivesse ocorrido durante uma apresentação, a ocorrência poderia ter tomados proporções trágicas. Segundo o estudo de Schmidt, as portas de saída de emergência, do corredor de acesso ao auditório, de madeira, abriam para dentro, quando a norma dos bombeiros é que seja para fora. Na Sala Rubens Sverner, o teatro menor, com 339 lugares, nem sequer existia saída de incêndio. Já as portas de saída de emergência da platéia da Sala Esther de Mesquita, com 1.156 poltronas, onde teria começado o fogo, tinham dimensões menores que o recomendado – cerca de 80 centímetros de largura, quando o normal seria de 1,20 metro.
“Algumas normas não foram seguidas, isso é fato”, diz Schmidt. O arquiteto queria mesmo era analisar as condição de construção e manutenção dos museus paulistas. Mas como não recebeu a autorização de alguns diretores, acabou escolhendo o Cultura Artística como assunto para a sua tese de especialização da FAU-USP por gostar do teatro. “Sempre ia lá, achei que seria interessante analisar a estrutura para a minha pós-graduação em patologias construtivas. Por ser um projeto antigo, acabei encontrando vários problemas de execução e de manutenção, algumas coisas que poderiam sim causar um acidente. No final até ofereci para a direção do teatro se queriam uma cópia, mas ninguém mostrou interesse.”
OS PROBLEMAS
Falta de drenagem no piso, que está impermeabilizado
Umidade na parte externa
Marquise da fachada sem impermeabilização
Estrutura da escada de incêndio corroída de ferrugem
Corrimãos com altura e formato incorretos
Estrutura de acesso ao ar-condicionado e telhado sem corredores projetados para circulação e manutenção
Madeiramento da cobertura com início de deterioração
Laje com infiltração
Vazamento no encontro das telhas com a parede
Esquadrias fixas de ferro com deterioração pela ferrugem
Porta de emergência, do corredor de acesso ao auditório, de madeira, abre para dentro
Não existe saída de incêndio para a Sala Rubens Sverner
Portas de saída de emergência da platéia com dimensões menores do que os técnicos exigem
Corredores entre as poltronas estreitos para passagem em caso de emergência
Piso do urdimento (armação construída ao longo do teto do palco, para permitir o funcionamento de dispositivos cênicos), bem como os pisos de acesso à cobertura e à caixa acústica, de madeira, já estão deteriorados
Toda a rede elétrica do prédio não é embutida nas paredes. Alguns fios passam pelos forros de gesso, por exemplo na área da platéia
Caixa de disjuntores com ferrugem nas soldas
Condutores de águas pluviais deteriorados, causando infiltrações nas paredes
Tubulações de água fria em paralelo a conduítes
Fonte: O Estado de São Paulo