Pesquisa: oito em cada 10 jovens se preocupam com o futuro financeiro
Os jovens brasileiros estão preocupados com o futuro financeiro e reconhecem a importância de começar cedo a construir uma reserva para a aposentadoria, mas ainda encontram dificuldades para transformar essa preocupação em planejamento de longo prazo. Pesquisa inédita realizada pelo Instituto Locomotiva, a pedido da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), revela que 80% dos jovens de 18 a 30 anos se preocupam com o futuro financeiro, mas apenas 34% consideram que estão fazendo algo concreto para se preparar financeiramente para o futuro.
O levantamento mostra que, embora 65% acreditem que a preparação financeira para a aposentadoria deva começar antes dos 30 anos, 60% tomam decisões financeiras com horizonte de até seis meses. Para metade dos entrevistados, pensar na aposentadoria provoca mais ansiedade do que motivação, evidenciando a distância entre a consciência sobre o futuro e as condições reais de planejamento.
A pesquisa ouviu 1.000 jovens das classes A, B e C, com renda própria, em todas as regiões do Brasil. Esse público representa aproximadamente 31 milhões de brasileiros, o equivalente a 19% da população adulta. Os resultados foram apresentados por Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva, na Talk Session “Previdência POP: como os jovens pensam o hoje e o amanhã”, no dia 22 de outubro, durante o 47º Congresso Brasileiro da Previdência Complementar (CBPP), em São Paulo.
O futuro importa, mas o presente determina as escolhas
A busca pela independência financeira aparece como principal objetivo dos jovens para os próximos anos, citada por 39% dos entrevistados, seguida pela formação de uma reserva de emergência (36%) e por viagens e lazer (25%). Guardar dinheiro para a maturidade ocupa apenas a sétima posição, com 19% das menções.
Quando projetam as próximas duas ou três décadas, as principais preocupações são a possibilidade de faltar dinheiro (37%), depender financeiramente de outras pessoas (27%) e enfrentar problemas de saúde (25%). Os resultados mostram que a preocupação com o futuro está presente, mas se manifesta, sobretudo, no desejo de conquistar autonomia e segurança financeira.
A realidade do orçamento, entretanto, impõe obstáculos. Segundo o levantamento, 41% dos jovens não têm sobra de recursos ou convivem com dívidas, enquanto apenas 19% possuem reservas suficientes para cobrir mais de três meses de despesas. Entre as principais dificuldades para guardar dinheiro estão os imprevistos frequentes (28%), a renda insuficiente (26%) e o endividamento (26%).
Para a Abrapp, os resultados reforçam a importância de estimular o planejamento previdenciário desde a juventude, quando existe mais tempo para formar uma reserva financeira e construir condições de autonomia no futuro.
“A previdência é uma coisa de jovem, não é coisa do idoso. Quem chega à longevidade colhe apenas o resultado daquilo que conseguiu construir e estruturar financeiramente ao longo dos anos”, afirma Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp.
Além das dificuldades financeiras, a pesquisa revela barreiras comportamentais que ajudam a explicar a distância entre a preocupação com o futuro e a adoção de medidas concretas de planejamento.
“A pesquisa evidencia a distância entre o que essa geração deseja para o futuro e o que consegue colocar em prática no presente. Os jovens reconhecem a importância de se preparar financeiramente e valorizam a própria autonomia, mas as necessidades imediatas acabam ocupando grande parte de suas decisões. É uma geração que pensa no amanhã, mas precisa lidar com as pressões financeiras de hoje”, analisa Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva.
Apesar das dificuldades, o estudo identifica oportunidades para aproximar as novas gerações do planejamento previdenciário. Para 59% dos entrevistados, envelhecer bem significa manter a autonomia e a capacidade de fazer as próprias escolhas.
Essa percepção ajuda a explicar por que a previdência pode ganhar relevância quando apresentada como parte de um projeto de vida, e não apenas como uma preocupação distante com a aposentadoria.
“Para essa geração, falar de aposentadoria não é necessariamente falar de liberdade ou qualidade de vida. Muitas vezes, é falar de uma preocupação distante, que gera mais ansiedade do que motivação. Quando o planejamento financeiro se conecta à autonomia e à possibilidade de fazer escolhas no futuro, essa conversa passa a fazer muito mais sentido para os jovens”, afirma Meirelles.
A pesquisa também revela que 65% dos entrevistados conhecem pouco ou nada sobre previdência privada, percentual que chega a 75% entre os jovens de 18 a 23 anos. Além do desconhecimento, há preocupações relacionadas à segurança e à flexibilidade dos produtos: 62% receiam mudanças nas regras ao longo do tempo e 50% têm medo de não conseguir acessar os recursos quando precisarem.
Apesar dessas barreiras, 48% dos jovens declaram alta disposição para começar a contribuir para uma solução de previdência nos próximos 12 meses, desde que encontrem uma alternativa adequada à sua realidade financeira. Além disso, 61% demonstram maior interesse quando compreendem que começar a poupar mais cedo permite buscar a mesma renda futura com contribuições mensais menores.
Entre os atributos mais valorizados pelos entrevistados estão a possibilidade de interromper temporariamente as contribuições sem perder o valor acumulado (32%), a transparência sobre taxas e custos (32%) e a opção de começar com valores baixos (31%).
Para Devanir Silva, os resultados reforçam a necessidade de ampliar o diálogo com as novas gerações, tornando mais conhecidos os benefícios da previdência complementar, a solidez e a sustentabilidade do sistema e seu papel na construção de uma renda futura. O desafio, segundo ele, é transmitir essas informações de forma simples e acessível, fortalecendo a confiança dos jovens no planejamento previdenciário de longo prazo.
“Somos uma página em branco para a sociedade. Pouca gente sabe o valor dessa previdência para o futuro das pessoas. Precisamos ter uma linguagem mais simples e mais direta com esses trabalhadores”, afirma o dirigente.
Na avaliação da Abrapp, os resultados da pesquisa reforçam uma discussão que vai além do comportamento financeiro dos jovens. O envelhecimento da população, as transformações nas relações de trabalho e as dificuldades de formação de poupança de longo prazo exigem novas estratégias para ampliar a proteção previdenciária dos brasileiros.
“Não podemos discutir o futuro da Previdência apenas pelo lado da contenção de despesas. Precisamos olhar também para quem está fora do sistema e criar mecanismos capazes de incorporar esses trabalhadores. Ampliar a cobertura é, ao mesmo tempo, uma agenda de inclusão social e de sustentabilidade econômica”, afirma Devanir Silva.
O estudo também identifica diferentes níveis de planejamento financeiro entre os jovens. O grupo com menor nível de planejamento representa 53% da amostra e, entre esses entrevistados, 40% consideram viável começar a contribuir com valores de até R$ 50 mensais.
Os resultados reforçam a necessidade de desenvolver soluções previdenciárias mais flexíveis e customizadas, capazes de atender diferentes perfis de trabalhadores e realidades de renda. Para ampliar a cobertura previdenciária, é fundamental considerar as diferenças de conhecimento, capacidade de poupança e estabilidade financeira, oferecendo alternativas que permitam contribuições acessíveis, ajustáveis e compatíveis com as condições de cada público.
Realizada pelo Instituto Locomotiva, a pedido da Abrapp, a pesquisa “Desafios e Oportunidades para Previdência Privada para Jovens” contou com uma etapa quantitativa de 1.000 entrevistas digitais por autopreenchimento, com homens e mulheres de 18 a 30 anos, das classes A, B e C, com renda própria, de todas as regiões do Brasil. O estudo também incluiu uma etapa qualitativa, composta por seis entrevistas em profundidade, realizadas online.
Fonte: Abrapp
