Economia

Varejo e serviços perdem fôlego e endividamento limita a retomada

O comércio varejista brasileiro e o setor de serviços seguem em nível elevado, mas com pouco impulso. Foi o que mostraram a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) e a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na análise da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o crédito caro e o orçamento familiar comprometido por dívidas continuam limitando o consumo, especialmente de bens e serviços de maior valor.

O varejo restrito avançou 0,1% em relação a julho, abaixo da previsão de 0,5% da CNC. Já o volume de serviços recuou 0,1% frente a julho, após estabilidade no mês anterior, contra projeção de alta de 0,1% da Confederação, embora tenha permanecido em alta nas comparações anuais e acumuladas.

“Os dois setores permanecem próximos dos seus melhores níveis, mas o crescimento é moderado e pouco disseminado. O resultado é coerente com a desaceleração mais ampla da economia em 2026”, afirma o economista da CNC João Vitor Gonçalves.

Para a CNC, o cenário de crédito explica a dificuldade de retomada mais consistente. A Selic caiu para 13,75% em setembro, mas continua em patamar restritivo. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, mostrou 81,7% das famílias endividadas e 29,6% com contas em atraso em setembro, leve alívio frente ao mês anterior, mas ainda em níveis elevados, o que limita gastos não essenciais e pressiona os segmentos de maior valor.

Cinco das oito atividades do varejo restrito cresceram em agosto: informática e comunicação (+6,3%), outros artigos de uso pessoal e doméstico (+1,4%), combustíveis e lubrificantes (+1,1%), artigos farmacêuticos (+0,7%) e tecidos, vestuário e calçados (+0,6%). Duas quedas, porém, neutralizaram boa parte das altas: móveis e eletrodomésticos (-4,2%), segundo recuo consecutivo e perda acumulada de 8,9% em julho e agosto, e hipermercados e supermercados (-0,3%), grupo de maior peso no índice.

“Móveis e eletrodomésticos dependem muito de financiamento, e o custo do crédito é uma explicação plausível para a fraqueza do grupo, somado ao desempenho negativo de veículos e materiais de construção no varejo ampliado”, explica Gonçalves.

Nos supermercados, o volume não reagiu mesmo com a queda de 0,61% da alimentação no domicílio no IPCA em agosto. Segundo o economista da CNC, a ausência de reação, apesar do alívio de preços, sugere que o orçamento familiar segue pressionado, embora não seja possível atribuir o resultado a um único fator.

A queda de 0,1% do índice geral de serviços escondeu movimentos distintos. Três das cinco grandes atividades recuaram: transportes, serviços auxiliares e correio (-0,2%), serviços profissionais, administrativos e complementares (-0,2%) e outros serviços (-1,0%). Os serviços de informação e comunicação ficaram estáveis, enquanto os serviços prestados às famílias cresceram 2,1%, o melhor resultado entre as grandes atividades, puxados por alojamento e alimentação (+2,6%).

As atividades turísticas avançaram 2,5% no mês, segundo ganho consecutivo, com acumulado de 5,5% em julho e agosto, e crescimento em 14 dos 17 estados pesquisados. O transporte aéreo subiu 5,8%, favorecido, segundo a CNC, pela queda de 13,17% nos preços das passagens aéreas em agosto, medida pelo IPCA. “Em setembro, porém, as passagens voltaram a subir 9,66%, o que pode limitar a continuidade desse movimento”, pondera Gonçalves.

O economista destaca ainda o efeito dos preços sobre o desempenho dos serviços: a receita nominal do setor cresceu 6,1% sobre agosto de 2025, enquanto o volume avançou 0,6%, o que corresponde a um efeito de preços de cerca de 5,5%. No turismo, esse efeito chegou a 8,9%. O segmento de tecnologia da informação, com alta de 9,6% em 12 meses, segue como principal vetor de crescimento dos serviços.

Projeções

Para o varejo restrito, o modelo da CNC projeta alta de 0,6% em setembro e atualiza a estimativa para 2026 para 2,2%. Para os serviços, a Confederação espera estabilidade em setembro e crescimento de cerca de 1,1% em 2026, após o resultado abaixo do esperado em agosto e as revisões da série. “A recuperação recente dos serviços às famílias e do turismo é positiva, mas o endividamento elevado, a nova alta das passagens aéreas e a fraqueza da indústria ainda recomendam cautela. No varejo, a retomada deve continuar desigual”, conclui o economista.

Fonte: CNC

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