Para ter mais executivas amanhã, o mercado segurador precisa olhar para as meninas hoje
Por Cynthia Betti, CEO da Plan International Brasil
Trabalhei por 16 anos no mercado segurador. Ingressei como analista na área de Recursos Humanos na MAPFRE, passei pela área de Gestão Estratégica e cheguei à diretoria de RH do Grupo BB e MAPFRE, onde permaneci até 2018, quando migrei para o terceiro setor. Ao longo dessa trajetória, tive o privilégio de acompanhar mulheres que conquistaram espaços que antes pareciam inalcançáveis. Juntas, discutimos diversidade quando o tema ainda ocupava poucas agendas corporativas e criamos um Conselho de Diversidade em um momento em que muitas empresas nem sequer falavam sobre inclusão.
Hoje, olhando para esse mercado do lado de fora, vejo avanços importantes. Há mais mulheres presentes, mais visibilidade para a pauta da equidade e mais consciência sobre a importância de lideranças diversas. Mas também vejo que ainda estamos longe de refletir, nos espaços de decisão, a diversidade da sociedade que buscamos proteger.
Quando cheguei à Plan International Brasil, em 2018, meu olhar sobre esse tema se ampliou. O contato com meninas e jovens de contextos vulnerabilizados me fez entender que muitas das inseguranças que acompanham as mulheres ao longo da vida profissional não surgem no ambiente de trabalho. Elas começam muito antes.
Começam quando uma menina cresce ouvindo que seus sonhos precisam caber em limites impostos por outras pessoas. Quando enfrenta violências, desigualdades ou a falta de oportunidades. Quando aprende, desde cedo, a duvidar do próprio potencial. Se queremos mais mulheres ocupando posições de liderança amanhã, precisamos olhar para as meninas de hoje.
É por isso que o Dia Internacional da Menina, celebrado em 11 de outubro, é tão relevante. A data nos convida a refletir sobre os obstáculos que ainda limitam o futuro de milhões de meninas.
Neste ano, a Plan International traz a mensagem “Meninas respeitadas, direitos protegidos”. E não existe respeito verdadeiro sem enfrentar um dos desafios que mais impactam as trajetórias delas: a gravidez na infância e na adolescência.
A pesquisa Marcas do Tempo, realizada pela Plan International Brasil com mais de 1.500 mulheres de 19 a 29 anos de todo o país, mostra a dimensão desse impacto. Entre as entrevistadas que engravidaram precocemente, 61% interromperam os estudos e 83% deixaram de trabalhar ou perderam oportunidades profissionais em razão da maternidade.
Por trás desses números há histórias interrompidas e projetos adiados. Quantas futuras líderes, executivas e empreendedoras estamos perdendo antes mesmo de terem a oportunidade de iniciar sua trajetória?
Por isso, gostaria de deixar uma reflexão especialmente para quem lidera pessoas no setor segurador. Quando uma jovem mãe participa de um processo seletivo, o que enxergamos nela? Quais desafios compreendemos? Quais potenciais reconhecemos? E estamos preparados para apoiá-la em seu desenvolvimento?
Construir ambientes verdadeiramente inclusivos exige mais do que abrir portas. Exige entender que pessoas diferentes enfrentam realidades diferentes e que equidade significa criar condições para que todas possam prosperar.
Na prática, isso pode significar estabelecer parcerias com organizações que atuam nos territórios mais vulnerabilizados, revisar critérios de recrutamento que, muitas vezes sem intenção, excluem determinados perfis, oferecer programas de mentoria, flexibilizar jornadas quando possível e criar oportunidades de desenvolvimento que considerem as diferentes etapas da vida das pessoas.
Há também uma razão estratégica para isso. O setor segurador atende um país diverso, complexo e cheio de diferentes realidades. Quanto mais essas realidades estiverem representadas dentro das empresas, maior será nossa capacidade de compreender necessidades, inovar e construir soluções relevantes para a sociedade.
Na Plan International Brasil, trabalhamos para romper ciclos de violências e desigualdades que afetam meninas e jovens. Na capital paulista, por exemplo, o projeto Pontes para o Futuro prepara jovens de 15 a 24 anos para o mundo do trabalho e o empreendedorismo, combinando formação em direitos, igualdade de gênero, educação financeira, mentorias e aproximação com empresas.
Iniciativas como essas constroem caminhos mais justos, e o mercado segurador pode ser um parceiro importante nessa transformação.
Afinal, a diversidade que buscamos nas salas de reunião começa muito antes delas. Para termos mais mulheres liderando amanhã, precisamos garantir hoje que cada menina possa crescer livre, segura, respeitada e confiante de que o seu futuro não será definido pelas barreiras que encontrar pelo caminho.
