Falta de reconhecimento no trabalho pode afetar a saúde
Quais fatores podem levar à exaustão? O pesquisador brasileiro Ricardo Bertoni Pompeu, da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp (SP), interessou-se por um deles em particular: a falta de reconhecimento profissional e seu impacto na saúde mental dos trabalhadores.
O estudo inédito, que ganhou destaque no Jornal da Unicamp (Universidade de Campinas), resultou na tese de doutorado “Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da Justiça Organizacional”. A pesquisa traz vários depoimentos de assalariados de diferentes setores sobre a exposição contínua a riscos ocupacionais que levaram ao adoecimento.
Assédio, presenteísmo, metas inalcançáveis, estagnação, falta de recursos, perspectivas ou invisibilização: a lista é longa na mesma proporção dos estragos que provoca na saúde dos trabalhadores.
Segundo o pesquisador, sua inspiração veio principalmente da convivência com seus alunos da Fatec (Faculdade de Tecnologia de Americana), no interior de São Paulo. A maioria deles, de famílias de baixa renda, estuda e trabalha.
“Eles estudam e trabalham exaustivamente, mas são sempre cobrados por aquilo que não fazem. Não basta o que já estão fazendo, pois sempre deveriam fazer mais, além do que recebem e do que lhes é pago. O reconhecimento é como se fosse um eterno devir, mas que nunca chega. Ouvem muito esse discurso de ‘sair da zona de conforto’. Mas o que significa isso? Pelos relatos, ninguém se sente confortável!”
O estudo se baseia na Teoria do Reconhecimento, do filósofo alemão contemporâneo Axel Honneth, e na Psicodinâmica do Trabalho, do psiquiatra francês Christophe Dejours, que tem vários livros sobre o tema lançados na França.
“Honneth fala sobre luta por reconhecimento. Dejours conhece os efeitos negativos que isso causa e explica como o corpo se molda a esse sofrimento para conseguir lidar com ele.”
Segundo Ricardo, o psiquiatra francês introduz o conceito de trabalho real, que é o esforço invisível para executar uma tarefa.
“Para eu fazer um relatório, por exemplo, não basta sentar na frente do computador, pegar os dados, preencher e concluir. Há um esforço cognitivo. Como vou fazer esse relatório? Quais dados vou colocar? Com que profundidade? Há também um esforço físico. Estou sentado aqui, a cadeira me incomoda, a luz me incomoda, o próprio computador, os óculos. Tenho de lidar com tudo isso”, exemplifica.
Mas não é só, explica o pesquisador. “Há também um esforço afetivo, porque não posso fazer o meu trabalho exatamente do jeito que quero. Quando elaboro esse relatório, se começo a incluir elementos que podem complicar a vida de outros colegas, não por causa dos dados em si, mas da própria estrutura do trabalho, surge um problema”, diz.
Há ainda o esforço emocional, gerado pela raiva, pela desilusão e pela frustração encontradas diante de dificuldades na execução do trabalho.
“Existe também um esforço psíquico, aquele sentimento de dúvida: ‘Está bom o suficiente?’, ‘O que os outros vão pensar?’, ‘Ainda vão me considerar competente depois de ler este relatório?’. Veja a quantidade de esforço envolvida. Isso é o chamado trabalho real: as pessoas são mensuradas nas organizações pelo trabalho prescrito, pelo resultado, mas não por esse esforço. E esse trabalho invisível adoece as pessoas.”
‘Aberrações’
Os 18 entrevistados ouvidos pelo pesquisador brasileiro tinham entre 20 e 40 anos e trabalharam em diferentes setores. Os relatos, verificados, ilustram o funcionamento tóxico de algumas empresas, sem que os próprios gestores muitas vezes se deem conta das situações abusivas.
É o caso de um dos participantes da pesquisa, um vendedor que, na tentativa de ser promovido, aceitou reduzir sua própria renda. Ele abriu mão de comissões e acabou se endividando para se enquadrar no salário do cargo de subgerente que, sem as comissões, era menor.
Mas a empresa acabou contratando outra pessoa para a vaga, e o jovem ainda foi incumbido de treiná-la.
Fonte: G1
