Saúde

O paradoxo dos wearables: quando saúde vira obsessão

Os consumidores esperam uma atuação mais ampla das seguradoras. A opinião é da diretora de Produtos de Vida da Icatu Seguros, Luciana Bastos, segundo a qual um estudo da Bain & Company mostra que as pessoas buscam mais do que proteção financeira diante de imprevistos. “Elas querem apoio preventivo, experiências digitais simples e serviços personalizados”, pontua a executiva, em artigo.

Leia o artigo, abaixo, na íntegra:

A promessa era simples: mais dados, mais controle, mais saúde. Hoje, pelo menos 30% dos adultos americanos usam algum wearable, dispositivo vestível como smartwatches, pulseiras fitness e anéis inteligentes capazes de monitorar indicadores de saúde em tempo real. São mais de 611 milhões desses aparelhos em circulação no mundo, segundo o Worldwide Wearable Devices Tracker. No Brasil, esse mercado também avança rapidamente, impulsionado pela popularização dos relógios inteligentes e aplicativos de monitoramento de saúde.

Mas o que nasceu para ampliar autonomia começa a revelar um efeito colateral inesperado: o excesso de monitoramento pode estar nos deixando mais ansiosos e, em alguns casos, menos saudáveis.

Os wearables acompanham sono, frequência cardíaca, níveis de estresse, gasto calórico e pequenas variações fisiológicas ao longo do dia. O problema não está na coleta de dados, mas na forma como eles são interpretados.

O novo risco é a chamada ansiedade biométrica. A quantidade de informações produzida por um wearable é impressionante. Porém, nem sempre mais informação produz melhores decisões. Pesquisadores da Harvard Medical School já alertam para o estado de vigilância constante provocado pela interpretação excessiva de pequenas oscilações fisiológicas que, muitas vezes, são perfeitamente normais.

Uma noite de sono ligeiramente pior, uma frequência cardíaca momentaneamente mais elevada ou uma queda pontual nos indicadores de recuperação passam a ser percebidas como sinais de alerta. Paradoxalmente, a busca por controle absoluto pode se transformar em uma nova fonte de estresse.

Assim, cresce também a ortossônia, obsessão por atingir um “sono perfeito” com base em dados fornecidos por aplicativos e relógios inteligentes. A saúde deixa de ser uma experiência vivida e passa a funcionar como uma meta permanente de performance.

E esse é justamente o paradoxo da hiperconectividade aplicada ao bem-estar. A tecnologia pode ser uma aliada poderosa da prevenção, desde que não transforme o autocuidado em vigilância constante.

Os benefícios existem. Uma análise publicada pela revista The Lancet mostra que usuários desses dispositivos dão, em média, 1.800 passos a mais por dia e acumulam cerca de 40 minutos extras de caminhada diariamente. Quando usada como incentivo a hábitos saudáveis, a tecnologia contribui para uma vida mais ativa e preventiva.

O desafio começa quando o foco deixa de ser saúde e passa a ser otimização. Dormir vira pontuação. Descansar vira meta. O corpo passa a operar como algoritmo e qualquer desvio parece falha.

Essa discussão se conecta diretamente ao conceito de healthspan. Enquanto o lifespan mede quantos anos uma pessoa vive, o healthspan mede por quanto tempo ela consegue viver com saúde, autonomia e qualidade de vida. Em outras palavras: não basta viver mais. O desafio é viver melhor por mais tempo.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a expectativa global de vida alcançou aproximadamente 73 anos, enquanto a expectativa de vida saudável gira em torno de 63 anos. Em outras palavras, a população mundial convive, em média, com um intervalo próximo de dez anos marcado por algum grau de limitação funcional ou doença crônica.

É justamente nesse ponto que a tecnologia pode ter um papel transformador. Quando usados de forma equilibrada, os wearables ajudam a estimular prevenção, acompanhamento contínuo da saúde e mudanças positivas de comportamento. Mas, quando o monitoramento vira obsessão, o efeito pode ser o contrário: mais ansiedade, mais pressão e menos bem-estar.

Esse cenário também provoca uma transformação importante no mercado de seguros de pessoas. Historicamente, o seguro de vida foi estruturado para proteger famílias contra eventos que afetam o lifespan. No entanto, os consumidores de hoje buscam produtos que protegem também do healthspan.

Os consumidores já esperam uma atuação mais ampla das seguradoras. Um estudo da Bain & Company mostra que as pessoas buscam mais do que proteção financeira diante de imprevistos. Elas querem apoio preventivo, experiências digitais simples e serviços personalizados.

Isso exige uma mudança importante na lógica do setor. O seguro de vida deixa de atuar apenas diante da emergência e passa a ocupar também um papel de incentivo ao bem-estar, ao acompanhamento preventivo e à qualidade de vida.

Em diferentes mercados, já surgem iniciativas que usam dados de saúde para estimular hábitos mais saudáveis e ampliar o acesso a serviços de cuidado. Mas essa evolução só faz sentido quando a tecnologia ajuda as pessoas a viver melhor e não quando reforça uma cobrança permanente por metas inalcançáveis.

Vivemos uma era em que tudo pode ser medido: caminhar virou meta, dormir virou pontuação e relaxar virou dado. Mas saúde não pode ser resumida a métricas.

O futuro da longevidade dependerá menos da quantidade de dados que produzimos e mais da nossa capacidade de interpretá-los com equilíbrio. No encontro entre healthspan e lifespan, talvez a pergunta mais importante não seja quanto estamos medindo. Mas se estamos usando essas informações para viver melhor.

Fonte: Icatu Seguros

Falar agora
Olá 👋
Como podemos ajudá-la(o)?