Do ganhar ao proteger: as caixinhas que constroem liberdade
Por Magali Zeller
Há pessoas que aprendem a ganhar dinheiro. Eu aprendi que o dinheiro também pode cuidar de pessoas. Talvez seja por isso que minha história nunca tenha sido apenas sobre matemática. Sempre foi sobre confiança, proteção e futuro.
Minha relação com investimentos começou jovem, na Corretora de Valores Tavolaro, membro 32 da CVM. Ali, percebi que administrar recursos significava administrar confiança. Durante a graduação em Ciências Contábeis, participei da comissão de formatura e fiquei responsável pelas aplicações das mensalidades. O valor havia sido projetado para custear o evento, mas a rentabilidade permitiu ampliar a celebração sem aumentar o custo para os colegas.
Realizamos uma formatura inesquecível, com missa acompanhada pelo Coral Baccarelli, buffet com os pais, baile, champanhe personalizada e orquídeas para as mães. Foi ali que compreendi que dinheiro bem administrado não serve apenas para pagar compromissos. Ele também constrói memórias.
Depois, segui para uma corretora e consultoria internacional de benefícios e gestão de riscos e complementei minha formação em Ciências Atuariais na PUC-SP. Ao longo de quase quatro décadas em saúde, seguros, previdência, consultoria e auditoria atuarial e perícias judiciais, percebi algo recorrente: muitas pessoas trabalham e investem, mas não conseguem transformar renda em patrimônio.
Amigos, colegas e clientes passaram a me procurar com a mesma pergunta: “Para onde está indo meu dinheiro?” Dessas conversas nasceram programas de orientação, treinamento e acompanhamento da construção patrimonial.
Para explicar esse processo, uso uma imagem simples: todo dinheiro precisa morar em uma caixinha. Existe a caixinha da casa, da saúde, da previdência, da proteção, dos investimentos e dos sonhos. O problema começa quando uma passa a sustentar outra. Quando isso vira hábito, o futuro é consumido pelas urgências do presente.
A organização financeira exige persistência. Em alguns meses, pode faltar em uma caixinha, e a tentação será retirar de outra. Mas é preciso distinguir ajuste consciente de descontrole recorrente. Cada caixinha representa uma escolha em favor do futuro.
Também aprendi que patrimônio não começa no investimento. Começa na proteção. Seguros, previdência, reserva de emergência, saúde e planejamento sucessório não são gastos isolados; são instrumentos de autonomia e tranquilidade.
Morgan Housel, em A Psicologia Financeira, lembra que o valor mais profundo do dinheiro está na liberdade de controlar o próprio tempo e as escolhas. Para muitas mulheres, dinheiro também significa liberdade para dizer sim, dizer não, permanecer, recomeçar e cuidar da família sem abrir mão de si.
Hoje, alimento um sonho: criar um gibi de educação financeira para crianças, especialmente meninas. O projeto já possui um esboço e busca parceiros. Se queremos mulheres conscientes no futuro, precisamos ensinar desde cedo que dinheiro não é tabu, matemática não é medo, proteção não é fraqueza e planejamento não é limitação. É liberdade.
Se este artigo inspirar uma mulher a organizar suas caixinhas, proteger sua família ou conversar sobre dinheiro com seus filhos, terei cumprido meu propósito. Porque, no fim, nunca foi apenas sobre dinheiro. Sempre foi sobre pessoas.
Proteger pessoas continua sendo, para mim, a mais nobre aplicação da matemática.
