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As credencias delas

Por Luciana Fernandes

Em junho de 2026 tive a oportunidade de participar de um evento sobre defesa cibernética contra golpes na era da IA em um hub de inovação de um grande banco brasileiro.

Para mim, corretora de seguros com experiência em segurança da informação e foco no seguro cibernético, um evento necessário!

A boa notícia é que, de um total de 5 palestrantes, 4 mulheres e 1 homem falaram sobre os desafios, números e pontos de atenção sobre o assunto. Mais mulheres do que homens num evento com essa temática já é por si só um fato simplesmente impensável de acontecer há alguns anos atrás. Pelo jeito, tantos esforços para termos mais mulheres nas lideranças de áreas técnicas vem dando resultado! Todas as pessoas que palestraram eram de grandes empresas ou responsáveis por startups que fazem parte do do hub de inovação. Ou seja, profissionais que entendem do assunto.

Pois bem, todas as 4 mulheres tinham como primeiro slide dos seus materiais um resumo da experiência profissional de cada uma, a posição atual que ocupavam e  algumas até com informações sobre a formação, como área e instituição de ensino. 

Já o único homem palestrante não apresentou nenhum slide similar, mas apenas o seu nome e o cargo na empresa. 

E essa discrepância, aparentemente sem importância, ficou me incomodando durante todo o evento, quase como um déjà vu. Talvez por conta de tantas situações similares que vi ou vivi em décadas no mundo corporativo, e não só em áreas técnicas. E veja bem, este texto não é sobre a qualidade das apresentações ou das pessoas apresentadoras. 

O ponto aqui é que as mulheres são, em sua grande maioria, mais preparadas e possuem mais tempo de escolaridade do que seus colegas homens. Através do Censo de 2022, o IBGE mostrou que, entre as mulheres com 25 anos ou mais, 20,7% possuíam nível superior completo, proporção que entre os homens da mesma faixa etária era de 15,8%. Já a proporção da população com 25 anos ou mais “sem instrução e fundamental incompleto” era de 37,3% entre os homens e 33,4% entre as mulheres. 

Trocando em miúdos, as mulheres buscam e conquistam mais escolaridade do que os homens. E mais escolaridade é um grande impulsionador para cargos de mais responsabilidade. 

Mas para além de recortes e informações demográficas, a pulga que se instalou na minha orelha (o déjà vu que mencionei) durante o evento foi pelo fato de que, se todas as pessoas foram convidadas a palestrar, todas haviam sido previamente verificadas ou validadas pelos organizadores antes do evento. Por que então só as mulheres incluiram as próprias credenciais no slide de abertura?

Bom, para não ficar só na minha percepção, fiz algumas pesquisas para escrever este artigo, e acabei me deparando com um conceito conhecido como “prove it again”, que é sobre um viés social e corporativo no qual determinados grupos — frequentemente mulheres e minorias — precisam demonstrar sua competência repetidamente, enquanto colegas do grupo dominante têm seu potencial reconhecido mais facilmente. 

Eu acredito de verdade que cada uma das mulheres palestrantes no evento não teve o pensamento claro de que teriam que provar suas competências para a audiência. Muito provavelmente esse viés já está tão consolidado que, deixar registrado seu histórico para provar que mereciam estar ali é natural, não parece ou uma obrigação a mais. 

Na minha experiência de décadas no mundo corporativo, eu realmente não lembro de objetivamente ter pensado sobre como eu deveria estar extremamente preparada para qualquer desafio, apresentação ou projeto. Eu simplesmente seguia essa linha de forma natural, porque basicamente sempre foi assim. E sinceramente, muitas vezes não vi tanto empenho ou tanta preocupação em meus pares homens. 

No fim, acho essa situação pode ser resumida assim:

As quatro mulheres palestrantes mostraram suas credencias.

O único homem palestrante não sentiu que precisava fazer o mesmo.

Será que já não passou da hora de não termos que nos provar de novo e de novo, a cada novo desafio? 

Luciana Fernandes
Proprietária na MILI Consultoria e Corretora de Seguros

Formada em Processamento de Dados e com uma extensa carreira nas áreas de Tecnologia da Informação, Segurança da Informação e Auditoria de Sistemas, foi através da migração para a área de Governança Corporativa que incrementou seu conhecimento em Gestão de Riscos. Quando decidiu sair do ambiente corporativo de grandes multinacionais e empreender, foi através da criação de uma empresa que une consultoria em Compliance e LGPD e corretagem de seguros para PMEs que conseguiu completar o círculo virtuoso da gestão empresarial de riscos.

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