Quando a coragem encontra a vulnerabilidade: uma reflexão sobre Equidade de Gênero e consolidação profissional
Por Flavia Souza
Ao longo dos anos, percebe-se que a pauta Equidade de Gênero passou a integrar, de forma consistente, a agenda do Mercado Segurador em virtude de fatores como pressão social, agenda ESG, autorregulação do setor e principalmente, mudanças culturais. Dentre os fatores relevantes desta jornada, a formalização da Sou Segura em 2018, então, Associação das Mulheres do Mercado de Seguros (AMMS), foi um marco central deste processo.
Nesse contexto, surge a necessidade de promover ambientes corporativos nas empresas do mercado segurador brasileiro que valorizem o talento das mulheres, legitimem suas ambições e reconheçam que equidade não pode ser tratada apenas como discurso ou um indicador, e sim, como um princípio fundamental para organizações verdadeiramente comprometidas com a liderança feminina e a pauta Equidade de Gênero. Ambientes assim, não apenas passaram a reconhecer o potencial, mas estruturam caminhos e estratégias concretas para o desenvolvimento e a ascensão de mulheres às posições de liderança criando ambientes seguros e legítimos para o desenvolvimento feminino deste mercado.
Ainda que avanços tenham sido alcançados, o fortalecimento contínuo da pauta de Equidade de Gênero no mercado segurador brasileiro segue sendo necessário, relevante — e, por que não, urgente. Isso porque envolve a consolidação de espaços legítimos para diálogos qualificados sobre desafios, escolhas e competências essenciais para que mulheres avancem e se consolidem em trajetórias profissionais sólidas, especialmente em contextos organizacionais cada vez mais complexos.
É nesse contexto que dois temas se entrelaçam de forma inseparável: coragem e vulnerabilidade. À primeira vista, podem soar dicotômicos. Mas quando o assunto é equidade de gênero e desenvolvimento feminino, eles se revelam profundamente conectados. A vulnerabilidade abre espaço para o diálogo, para a escuta e para a transformação. A coragem sustenta ações, posicionamentos e mudanças reais.
Para a maior parte das mulheres, coragem é, sobretudo, um ato cotidiano e, muitas vezes, silencioso: levantar a mão em uma sala hostil, pedir uma oportunidade quando a estrutura não facilita, reivindicar reconhecimento sem receio de rótulos, admitir que não sabe — ou afirmar com firmeza que é especialista no assunto. É a coragem de existir profissionalmente com potência, mesmo quando o imaginário social insiste em reduzir trajetórias e ambições.
Falar de coragem e vulnerabilidade no contexto da liderança feminina é reconhecer que, no Brasil, a construção de trajetórias rumo à liderança não é apenas uma questão de competência técnica. Trata-se, também, de navegar sistemas complexos, culturalmente desiguais e repletos de expectativas contraditórias. A constatação de que a liderança infalível já não responde às exigências contemporâneas fortalece a pauta da Equidade de Gênero ao reposicionar a vulnerabilidade como um conceito legítimo e inseparável da coragem necessária para liderar em contextos complexos.
A coragem, nesse contexto, aparece de forma ampla e profunda. Coragem para se posicionar, para pedir oportunidades, para reivindicar reconhecimento e para sustentar a própria identidade em ambientes que nem sempre facilitam esse movimento. Já a vulnerabilidade surge como potência: a capacidade de se expor, de abrir conversas difíceis, de admitir dúvidas e de aprender coletivamente. Nesse sentido, é fundamental que as empresas do setor, consolidem ambientes psicologicamente seguros, de modo a possibilitar a discussão sobre vieses implícitos, injustiças e barreiras. Reconhecer essas dinâmicas é essencial para transformar culturas e acelerar mudanças no caminho da Equidade de Gênero.
Em setores como Seguros e Previdência, historicamente marcados por estruturas tradicionais e forte presença masculina, tratar de vulnerabilidade e coragem no contexto da pauta Equidade de gênero torna-se ainda mais relevante. Crescer profissionalmente no mercado segurador nunca exigiu tanta resiliência e capacidade de lidar com ambiguidades, tensões e decisões sem respostas óbvias.
E nesse contexto surge uma pergunta fundamental: como ascender e consolidar-se profissionalmente a partir da coragem e por que não, do reconhecimento de vulnerabilidades?
Compreender a consolidação profissional, vinculando-a à conquista de credibilidade, ao poder de influência e, sobretudo, à capacidade de argumentação, possibilita a ascensão de maneira sustentável, porque consolidar-se exige algo que nem sempre aparece nos organogramas e no arcabouço de competência requeridas: coragem. Coragem para não renunciar à própria identidade em nome de um modelo único de liderança. Coragem para argumentar, questionar, discordar, negociar e, também, para observar. Coragem para reconhecer-se competente e potente.
Em ambientes corporativos cada vez mais voláteis, interdependentes e desafiadores, crescer profissionalmente exige mais do que competência técnica. Exige resiliência, capacidade de lidar com ambiguidades e, sobretudo, maturidade para se consolidar — não apenas ascender. Em suma, ascender não é apenas subir cargos e ampliar remuneração. É principalmente, construir credibilidade, participar ativamente da construção de valor para as organizações em que atuamos, ocupar espaços de decisão, de escuta, de articulação e impacto, expandir influência, relacionamentos para legitimar-se profissionalmente a longo prazo.
Apesar dos avanços recentes, é importante reconhecer que algumas empresas brasileiras vêm reduzindo investimentos em políticas de diversidade, equidade e inclusão, ao mesmo tempo em que esperam desenvolver líderes capazes de inovar, engajar equipes e sustentar a saúde mental em ambientes voláteis. Essa contradição evidencia um ponto central: não existe liderança forte sem diversidade real — e não existe diversidade real sem coragem para enfrentar vieses e vulnerabilidades, humanas e estruturais.
Consolidar-se profissionalmente é, acima de tudo, reafirmar compromissos. Compromissos com ambientes mais justos, líderes mais conscientes e organizações que reconhecem que ascender é importante, mas consolidar-se com autenticidade, competência e coragem, é transformador.
