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Ser mãe ou crescer na carreira: por que ainda parece uma escolha?

Por Ingrid Marques

Vivo há algum tempo um conflito que, acredito, muitas mulheres também enfrentam, mesmo que em silêncio.

Sou Ingrid Marques, Risk Manager, tenho 35 anos, sou casada e mãe de uma filha de 18 anos. Tive minha primeira filha muito jovem, vivi muitas experiências ao longo desse caminho e, hoje, em um novo momento da vida, casada há pouco mais de três anos, me vejo diante de uma decisão importante: pensar em engravidar novamente.

E é justamente aí que surgem os questionamentos.

Como fica a carreira em tudo isso?
E se, após a gravidez, eu ficar desempregada?
A promoção que almejo ainda vai acontecer?
Será que vou me tornar parte das estatísticas de mulheres que são desligadas após a licença maternidade?

Essas perguntas não nascem do acaso elas são sustentadas por dados e pela realidade de muitas mulheres.

E essa realidade ainda é marcada por desigualdades profundas que, no Brasil, também têm cor.

Pesquisas indicam que:

• Muitas mulheres enfrentam rejeição em processos seletivos por serem mães ou por estarem em idade fértil;
• No Brasil, 88% das pessoas acreditam que a possibilidade de engravidar impacta negativamente a contratação;
• 75% das mulheres já foram questionadas sobre filhos em entrevistas de emprego;
• Quase metade das mulheres já sofreu algum tipo de discriminação relacionada à gravidez no trabalho.

E quando olhamos para mulheres negras, esses números se tornam ainda mais preocupantes.

• Mulheres negras recebem, em média, cerca de 40% a menos do que homens brancos no Brasil;
• São maioria em empregos informais ou com menor proteção trabalhista, o que aumenta a vulnerabilidade durante e após a maternidade;
• Têm menor acesso a posições de liderança e maior exposição a vieses relacionados tanto ao gênero quanto à raça;
• Enfrentam maior dificuldade de recolocação após a maternidade, ampliando o impacto da chamada “penalidade da maternidade”.

Essa realidade levanta reflexões importantes.

Como podemos nos sentir seguras para trazer novas vidas ao mundo e, ao mesmo tempo, seguir contribuindo com o mercado de trabalho que, inclusive, depende constantemente da renovação de pessoas?

Este texto não tem a intenção de desencorajar ninguém, mas sim de dar nome a um conflito real.

A maternidade ainda é tratada, muitas vezes, como um “risco corporativo”.
E, quando somamos a isso o recorte racial, esse risco parece ainda maior.

Homens não são penalizados por se tornarem pais pelo contrário, em alguns contextos, são até vistos como mais estáveis.

Isso nos leva a outros questionamentos:

É por conta da diferença entre licença maternidade e paternidade?   

É porque, culturalmente, os homens ainda assumem menos responsabilidades no cuidado com os filhos?
Ou estamos diante de um modelo de trabalho que ainda não evoluiu o suficiente para lidar com a realidade das mulheres especialmente das mulheres negras?

Talvez seja um pouco de tudo isso.

O fato é que nós, mulheres, ainda enfrentamos inseguranças que não deveriam existir.
E, no meu caso, como mulher negra, essas inseguranças carregam camadas adicionais.

Merecemos ser reconhecidas pelas profissionais que somos e não julgadas por estarmos em idade fértil.

E, ironicamente, quando ultrapassamos essa fase, muitas vezes enfrentamos outro problema: o etarismo. Mas essa é uma conversa para outro momento.

O que quero trazer aqui é um olhar possível.

Depois de muitos diálogos em casa, na terapia e com outras mulheres que viveram a maternidade em fases semelhantes à minha comecei a enxergar não apenas o risco, mas também as possibilidades.

Existem estratégias.
Existem caminhos.
E existem escolhas conscientes.

Nós nos preparamos, nos organizamos, buscamos fazer o nosso melhor para reduzir riscos. Mas também precisamos reconhecer algo fundamental: o nosso valor não pode ser colocado em dúvida por uma escolha legítima de vida.

Não se trata de ignorar a realidade, mas de não permitir que o medo seja o único fator de decisão.

Acredito, de verdade, que é possível construir uma trajetória onde um sonho não anule o outro.

Podemos ser mulheres que escolhem a maternidade e, ao mesmo tempo, continuam sonhando, crescendo e ocupando espaços.

Porque, no fim, não deveria ser sobre escolher entre ser mãe ou ser profissional.

Deveria ser sobre ter a liberdade de ser as duas coisas.

Ingrid Marques
Risk Manager na Órigo Energia

Ingrid Marques é Risk Manager na Órigo Energia, empresa de destaque no setor de energia fotovoltaica. Possui mais de 15 anos de experiência em gestão de riscos e seguros, atuando em seguradoras e corretoras internacionais. Com visão estratégica e foco em resultados, atua na mitigação de riscos corporativos, proteção patrimonial e suporte à tomada de decisão em ambientes complexos. Além de sua trajetória profissional, Ingrid participa de projetos religiosos e sociais voltados à autossuficiência e à promoção da cultura, acreditando no poder transformador da arte e da responsabilidade social para o desenvolvimento humano e coletivo.

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