liderança feminina abriu caminhos no resseguro brasileiro
Chegar à presidência do Lloyd’s of London no Brasil e da Fenaber (Federação Nacional das Empresas de Resseguro) no Brasil foi, para Rafaela Barreda, o resultado de uma trajetória intensa, marcada por esforço, escolhas difíceis e aprendizados constantes. “Chegar até aqui significou muito esforço, dedicação, comprometimento, aprendizado, entrega e escolhas difíceis. Uma verdadeira montanha-russa, com altos e baixos”, resume. Ao longo do caminho, houve momentos de avanço e também de recuo estratégico, algo que, segundo ela, faz parte de qualquer processo real de crescimento.
Cada porta aberta trouxe também um senso ampliado de responsabilidade. “A cada porta que abri, sei que fui exemplo para outras mulheres de que o caminho era possível”, afirma.
Como mulher, Rafaela precisou aprender a navegar ambientes corporativos onde sua presença nem sempre era esperada ou naturalizada, especialmente em um setor historicamente masculino como o de seguros e resseguros.
Essa vivência moldou um estilo de liderança baseado em escuta, firmeza e construção coletiva. “Desenvolvi uma escuta ativa muito apurada, a capacidade de construir consensos sem perder firmeza, muita paciência e perseverança”, conta. Ao longo da carreira, também desenvolveu uma sensibilidade especial para identificar talentos que fogem do chamado perfil tradicional. “Muitas vezes, são pessoas que não se encaixam no molde esperado, mas que têm enorme potencial.” Para ela, liderar é, sobretudo, criar espaço para que diferentes vozes contribuam. “A pluralidade de ideias contribui com soluções inovativas.”
Apesar de avanços recentes em diversidade e inclusão, Rafaela é direta ao apontar que os desafios estruturais ainda são profundos. Ela lembra que, embora o Brasil tenha uma maioria feminina entre chefes de família, essa condição muitas vezes está ligada a contextos de abandono e sobrevivência. No mundo corporativo, os obstáculos se manifestam de outras formas. “A persistência de vieses inconscientes continua influenciando decisões de promoção, distribuição de projetos estratégicos e avaliações de performance”, afirma.
Segundo ela, a falta de flexibilidade organizacional, a ausência de redes de apoio e de patrocínio executivo e a sobrecarga das rotinas familiares criam um cenário desigual. “Diferente dos homens, as mulheres não contam com redes de apoio e, muitas vezes, precisam provar competência repetidas vezes para alcançar o mesmo nível de confiança”, diz.
Para acelerar a mudança, Rafaela defende que as empresas avancem além de políticas formais. “É necessário treinamento e responsabilização por comportamentos inadequados”, afirma. Outro ponto central é o papel do patrocínio. “Precisamos de sponsors executivos que coloquem nomes femininos em destaque e de lideranças que entendam diversidade como estratégia de negócio, não como iniciativa isolada.” Criar ambientes onde mulheres possam assumir riscos, errar, aprender e crescer é, para ela, um passo essencial. “Exatamente como sempre foi permitido aos homens.”
O ano de 2026, na avaliação da executiva, representa um ponto de inflexão para o setor. No Brasil, a nova lei de seguros e as mudanças regulatórias exigirão adaptações rápidas, aprendizado contínuo e ajustes de processos até que haja maior previsibilidade. No cenário global, somam-se pressões regulatórias e de capital, com maior rigor em solvência e interoperabilidade.
Os riscos climáticos intensificados já impactam sinistralidade e precificação, enquanto a tecnologia e a inteligência artificial ganham protagonismo. “Ferramentas de subscrição baseada em dados, produtos paramétricos e automação de processos ajudam na identificação, gerenciamento e mitigação de riscos”, explica. Ao mesmo tempo, o risco cibernético se torna cada vez mais relevante. “Ataques mais sofisticados, ransomware como serviço e vulnerabilidades nas cadeias de fornecedores colocam o risco cibernético entre os principais desafios para empresas e seguradoras.”
Diante desse cenário, Rafaela resume o espírito do próximo ciclo: “2026 exigirá velocidade, resiliência e capacidade de antecipação.” A preparação, segundo ela, passa por investimentos consistentes em tecnologia, pessoas e governança.
Para quem deseja crescer na indústria de seguros e resseguros, Rafaela destaca a importância do conhecimento técnico em subscrição, sinistros, modelos de risco, capital e comercialização, aliado à compreensão do funcionamento do setor e de suas tendências futuras. “Construir uma rede de relacionamento e patrocínio, dentro e fora da empresa, é fundamental, assim como desenvolver aptidão digital e saber navegar ambientes complexos.”
Ao olhar para trás, ela deixa conselhos claros para o início da carreira: “Ambiente e gestor importam tanto quanto o cargo. Documente suas conquistas e seja consistente com suas entregas. Não espere estar 100% pronta para dar o próximo passo.” E completa com um alerta essencial: “Cuide de si — da saúde, do apoio e do equilíbrio. A vida sempre exigirá mais, mas sua trajetória será construída pela combinação de competência, consistência e coragem”.
Fonte: Sonho Seguro
