Diante da ameaça de Trump, olhos se voltam para a Europa e a Ásia
A ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de romper o acordo nuclear com o Irã, retomando as sanções ao país, é tratada como piada nos gabinetes e nas ruas de Teerã. O americano é chamado de pessoa não confiável, figura desestabilizadora, palhaço, falastrão e até político narcisista e fundamentalista, como em capa recente da revista Sepideh Danaie.
A aposta coletiva é a de que Trump não conseguirá transformar discurso em ação. Por trás da retórica desafiadora, há uma estratégia do governo de Hassan Rouhani: aglutinar os interesses da Europa e da Ásia no Irã e acender o apetite do empresariado americano para isolar o presidente dos EUA e tornar o rompimento inviável.
– Trump é um falastrão, acusa o Irã gratuitamente. Toda vez que abre a boca gera incerteza. Mas o acordo não foi assinado só com os EUA. Os europeus são signatários. Muitas empresas europeias iniciaram negociações. Somos resilientes e determinados – disse Mohammad Jafar Safi, diretor do Departamento Internacional do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica.
CRESCIMENTO INÉDITO
O governo corre para fechar o máximo de acordos, convênios e investimentos desde 2015, quando o pacto foi assinado, otimista com a expansão de 94% no comércio com a Europa no primeiro semestre deste ano. O setor petrolífero cresceu 66% em 2016, puxando alta de 13,4% da economia, após recessão de 1,3% em 2015.
Quase 30 bancos do Irã já recuperaram o código Swift necessário a transações internacionais e algumas Instituições Financeiras voltaram a operar com o país.
A petrolífera francesa Total assinou investimento de US$ 5 bilhões no complexo petroquímico de South Pars. Renault e Peugeot querem ampliar a presença de suas subsidiárias.
Na Ásia, Japão e Coreia do Sul são dois dos mais engajados: seus bancos de fomento fecharam linhas de financiamento de US$ 10 bilhões, cada. Índia e China são parceiros estratégicos. Dinamarca e Áustria, por sua vez, assinaram contratos de crédito de US$ 500 milhões cada.
– O acordo é controverso dentro dos EUA, o que significa que Trump não tem necessariamente todas as cartas para tomar uma decisão unilateral – alertou Syed Mortazavi, professor de Ciências Políticas na Universidade Islâmica Azad.
De fato, uma das maiores prejudicadas num eventual cancelamento do acordo seria a americana Boeing, que em dezembro fechou a venda de 80 aeronaves para o Irã por US$ 16,8 bilhões.
O Brasil também tem planos para estreitar laços com o país, com o qual tem fluxo comercial de apenas US$ 2,7 bilhões. De acordo com o embaixador em Teerã, Rodrigo Azevedo, o Banco Central deu aval às negociações, e o Banco Paulista já assinou acordo de correspondência para serviços como transferência de divisas.
Agora, o Brasil quer engajar os grandes bancos, privados e públicos, e estimular a abertura de instituições iranianas no país. Além disso, o BC trabalha numa plataforma que permita operações nas moedas locais, e o governo estuda ainda a oferta de um seguro de crédito à exportação de bens e serviços aos empresários iranianos.
– Estão ávidos por capital e precisam de investimentos, para gerar empregos. E nós temos interesse em termos investidores brasileiros no Irã. As áreas de autopeças, transporte urbano, equipamentos médico-hospitalares e de petróleo e gás estão entre nossos grandes potenciais – disse Azevedo.
Fonte: O Globo
